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Falou e disse

É funk, mané!


Como toda manifestação cultural produzida sem intermediários e de forma espontânea dentro dos guetos, durante muito tempo o funk carioca fora marginalizado. Porém sua aceitação, mesmo a contragosto, tem mudado. E um dos grandes responsáveis por essa mudança foi o antropólogo Hermano Vianna, que na década de 80 teve a coragem de apontar o olhar acadêmico para o movimento cultural que tomava força nas favelas do Rio de Janeiro, o que resultou na publicação do clássico livro “O mundo funk carioca” (Jorge Zahar Editor, 1997)

O trabalho de Vianna deu luz nova ao movimento e abriu os olhos de uma classe que fingia ignorar o que se passava nas comunidades mais humildes. Com a ascendente popularidade do funk, logo o estilo tomou outras capitais brasileiras e, no início do século 21, ganhou o mundo.

Navegar é preciso
A primeira grande investida além-mar ocorreu no final de 2003, quando o produtor Tejo (Instituto) e a ex-dupla explosiva de rap formada por Black Alien e Speed, de Niterói, invadiram o Velho Mundo. Fazendo o caminho inverso dos conquistadores, o trio cruzou os sete mares e fincou a bandeira das favelas no Velho Continente. A invasão se deu por meio de uma campanha publicitária. Na ocasião, uma peça para uma Pick Up Nissan trazia como trilha o proibidão “Quem que Cagüetou”. Em pouco tempo o batidão se tornou hit na Europa e chamou a atenção de produtores consagrados como Fatboy Slim, que fez um remix de próprio punho para a música.

Logo, com a abertura, a Europa passou a receber representantes do funk carioca como Tati Quebra Barraco e o DJ Marlboro, por exemplo. O estilo virou febre e lugares como o sofisticado club Favela Chic, em Paris, começou a promover noites “sold out” de puro batidão. Com os aristocratas europeus ajoelhados diante daquele “som de favelado”, fazia-se necessário conquistar a América.

Nos EUA, o funk carioca conseguiu, ironicamente, chamar a atenção de um produtor natural do Mississipi, berço do blues. Ao ter o primeiro contato com umas fitas brasileiras recheadas de batidões, Diplo ficou impressionado e resolveu pesquisar a fundo sobre o estilo. As batidas e a atitude genuinamente “punk” encantaram sobremaneira o produtor, que logo veio ao Rio de Janeiro atrás dos responsáveis por aquele som.

No Brasil, encontrou-se com o DJ Marlboro e começou a percorrer os inferninhos cariocas. As viagens ao País se sucederam e suas incursões pelos bailes foram crescendo. O fascínio de Diplo tornou-se tão grande que, em sua volta para a América, lançou sua primeira mixtape “Favela on blast: Rio baile funk”, só com pancadões “nervosos”. A partir daí, com farto material, começou a promover o funk nos EUA.

Tá dominado! Tá tudo dominado!
Não demorou para que o sucesso da mixtape ecoasse pelos quatro cantos. Na Inglaterra, chamou a atenção de M.I.A., uma MC do Sri Lanka refugiada em Londres. Em pouco tempo Diplo estaria produzindo faixas para ela - que podem ser conferidas em “Arular”, aclamado álbum de estréia da MC, lançado recentemente nos EUA. Fiel às suas influências, Diplo recheou o trabalho com a força das batidas do ragga jamaicano e do pancadão made in brazil. A presença do funk em “Arular” é tamanha que o disco saiu com uma faixa (“Bucky Done Gun") contando com trechos de “Injeção”, do DJ Marlboro.

Atualmente, M.I.A. é o que há de mais inovador rolando pelas pistas dos EUA e vem provando que o funk é um movimento cultural que não só transcende as fronteiras entre o morro e o asfalto, mas também as continentais. Prova mais recente disso foi o sucesso da apresentação que a MC fez no gigantesco festival de Coachella, nos EUA, onde foi ovacionada loucamente pelo público de 100 mil pessoas e no qual “Back Done Gun”, com pitadas de Marlboro, virou hit.

Adendo
Quem quiser conferir o trabalho de M.I.A. não pode perder a sua passagem pelo Brasil, onde promete abalar as estruturas do Tim Festival 2005, em outubro, no Rio de Janeiro.

Emiliano Mello


Christina Fuscaldo
chris@itacoatiara.com

 

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