|
Lama Padma Samten
S.S.XIV Dalai Lama diz que
todos os seres fazem prática espiritual, mesmo
que não saibam, uma vez que se movem buscando
tanto a felicidade como a liberdade frente ao
sofrimento, e lembra que as religiões preenchem
sua função justo por estarem voltadas a auxiliar
os seres nisto.
Quando desejamos ter uma casa
na praia, estamos também buscando felicidade.
Ainda que nos falte clareza quanto a isto, esta
é a motivação verdadeira, o elemento mental que
cria no nosso desejo quanto à casa. Para buscar
a felicidade, a casa de praia é uma boa opção?
Passar lá o fim de semana é ótimo, não há mácula
nisso, mas quando chega o domingo, acaba.
A casa da praia nos traz um
tipo de felicidade que necessita um certo esforço
e trabalho para acontecer, e o benefício é curto.
No budismo, sentimos que trabalhos longos e felicidades
curtas não são muito interessantes, buscamos produzir
felicidade de longo alcance. Alguém, por exemplo,
que supere internamente o orgulho, imediatamente
melhorará sua relação com a família e com os amigos,
nessa vida e nas que se seguirão e todos ao redor
se beneficiam. Há variados tipos de felicidade,
por exemplo, a vaga em algum emprego. Neste caso
nossa felicidade implica na frustração dos outros
(que não conseguirão), além do mais, tão logo
comecemos a trabalhar, já surge a insatisfação
e começamos a pensar nos feriados ou então quanto
tempo falta para nossa aposentadoria... Esse benefício
de conseguir um "bom emprego" é muito diferente
do de superar um dos cinco venenos - orgulho,
inveja e avareza, desejo e apego, ignorância,
raiva. Veja bem, quando superamos a avareza, neste
exato instante nos tornamos ricos. Descobrimos
uma fonte de satisfação permanente, e tudo que
brota dessa fonte e que podemos oferecer aos outros
é motivo de alegria para nós. Quem dá alguma coisa
nunca perde essa alegria, já quem recebe, pode
até esquecer.
1. Felicidade e motivação
no budismo
A prática budista foca cuidadosamente
a motivação. Recitar mantras ou entrar num templo
sem a motivação correta, envelhece a religião.
A falha é nossa. Por que não olhamos as práticas
com o olho correto, não há benefícios, e nos tornamos
surdos às palavras de sabedoria. Por outro lado,
a motivação de trazer benefícios aos outros tem
o poder de transformar qualquer ação em prática
espiritual. É muito comum que as mães não tenham
tempo para praticar formalmente, mas com a motivação
de ajudar seus filhos e sustentar a casa, tudo
que elas fazem se transforma em prática espiritual.
Dependendo da motivação, em meio a suas atividades,
a pessoa pode se sentir aprisionada ou pode se
sentir como um sol, irradiando benefícios. As
situações externas são um espelho do que temos
internamente. Sempre podemos optar. Um dia vamos
morrer, e isso não é propriamente um momento feliz,
mas mesmo nesse momento, nós podemos irradiar
amor, compaixão, e equanimidade para todos os
seres. Usualmente nosso carma nos conduz a ver
tudo através dos cinco venenos, mas temos sempre
ao alcance os olhos dos Bodisatvas que tudo vêem
com compaixão, amor, alegria e equanimidade -
as quatro "qualidades incomensuráveis". Utilizar
esta capacidade de opção é que define a prática
espiritual budista. Quando um filho morre, é um
grande sofrimento, é um momento muito difícil,
e só existe uma forma de produzir e receber benefícios:
ter a percepção da natureza luminosa, divina,
estável, que é nossa identidade e que está além
de qualquer transformação, além de nome e forma,
de vida e morte, de esperança e medo, de espaço
e tempo. Desta experiência interna brotam naturalmente
as quatro qualidades incomensuráveis. Chagdud
Rinpoche diz que meditar uma hora por dia e ter
vinte e três horas de más ações, maus pensamentos,
não adianta. É necessário praticar vinte e quatro
horas por dia. A prática do cotidiano é a base,
a prática formal é complementar ao intensificar
nossa qualidade de atenção nas outras horas do
dia. As motivações podem ser classificadas como:
mundanas, pré-budistas e budistas. Em todos os
três casos, os seres, sem exceção, buscam a felicidade
e se afastar do sofrimento. Isso é uma chave unificadora.
Todos os seres, dos elefantes às pulgas, se movem
nessa direção. Na nossa relação com as pessoas
é assim, mesmo as pessoas que nos agridem, querem
felicidade e não querem sofrimento. Se nos aproximamos
com a intenção de prestar benefício, todos nos
acolhem; mas se nos aproximamos querendo sugar
o que o outro tem, somos repelidos, não há dúvida.
A chave numa relação afetiva, ou com amigos, é
a disposição de dar, e não a de receber. Todos
os mestres budistas falam isso. A origem do sofrimento
é colocar a experiência de felicidade na dependência
de algo externo. Não há como escapar, com a flutuação
do objeto, nossa felicidade flutua junto. O budismo
é resumido pelas expressões "Buda, Darma e Sanga",
que são os "três refúgios". Cada um de nós é um
Buda, nossa natureza é perfeita. Nossa mente é
um diamante, uma jóia, mas por operarmos a partir
de certos referenciais, não conseguimos manifestá-la
de forma pura, é como se o diamante estivesse
coberto com barro. O "Darma" são os ensinamentos
do Buda, métodos de limpar o barro que envolve
esse diamante. Num sentido interno, Darma é a
compreensão que brota da mente iluminada dentro
de nós. Quando repousamos sob a natureza do que
é liberto, além do espaço e tempo, podemos olhar
os jogos livremente, sem flutuar. "Sanga" é a
comunidade daqueles que praticam, é onde nós praticamos
a moralidade, que é se mover sem causar malefícios
e para o benefício dos outros. Com o tempo reconheceremos
todos os seres como a Sanga. Moralidade e meditação
vêm juntas. Se a pessoa pratica uma hora de meditação
e vinte e três horas de iniqüidades, não adianta.
A meditação é inseparável do nosso próprio cotidiano,
e da motivação das nossas ações. Ela é que vai
permitir transformar qualquer ação em prática
espiritual. Nos portamos como mendigos, colocamos
a felicidade como algo externo. Há nisso um carma
instantâneo: no momento em que se olha para fora
em busca de felicidade, esquecemos que a nossa
natureza é uma jóia, e nos tornamos mendigos.
É como se fossemos muito ricos, mas não tomássemos
consciência. Quando temos uma atitude de mendigos,
nos relacionamos com os outros buscando ganhar
um pão velho de vez em quando. Uma pessoa entra
numa situação e não sabe como sair, e assim esquece
a sua natureza luminosa básica. Dizemos que o
budismo inteiro é revelar esta natureza básica;
isso não é uma teoria, é uma coisa prática. É
como um carro que está atolado, basta tirá-lo
dali. E o ponto básico para fazer isso é a motivação,
pois é ela que inclui o aspecto sutil da energia
da ação. Já vimos que a motivação básica de todos
os seres é buscar felicidade e se afastar do sofrimento.
Há, então uma harmonia, todos fazendo a mesma
coisa. Ainda assim há diferenças, há a felicidade
permanente e as felicidades passageiras. A experiência
de felicidade de um casamento termina quando termina
o casamento. Dentre as passageiras, podemos ter
felicidades curtas e longos pagamentos por elas,
ou ter felicidades de média duração e longo sofrimento.
Podemos ter felicidades mais ou menos intensas;
e podemos ter felicidades à custa de outros seres,
como no caso do churrasco. Mas há um tipo de felicidade
que quando se obtém traz felicidade para nós e
para todos os outros, instantaneamente, e não
só isso, essa felicidade dura permanentemente.
Por exemplo, a pessoa se libera do orgulho; isso
é bom para ela e para todos, permanentemente.
Ou então alguém se libera da raiva, isso é uma
grande felicidade! Ela pode olhar com carinho
para os outros. É uma liberação, não termina;
ela pode olhar os outros como pais, irmãos. Liberar
significa que as qualidades que brotam na liberação
não são passíveis de perda. Existe essa felicidade
que é liberar as seis emoções perturbadoras. Nesse
momento o mundo muda, passa a ser uma fonte de
felicidade radiante, que não está em dependência
de fatores externos, nem de objetos. É a felicidade
permanente. As outras felicidades existem, não
há dúvida. Há as que se dão em dependência a objetos,
as felicidades mundanas. Há felicidades que podemos
obter à custa dos outros, que perdem ou são prejudicados.
Existem tradições religiosas que usam a palavra
Deus para seres que produzem benefícios para uns
e malefícios para outros. Temos que olhar com
cuidado isso. Em primeiro lugar, não é Deus. A
natureza do absoluto não pode ser descrita por
conceitos relativos. Mas há um tipo de seres,
em algumas religiões, que fazem isso. São seres
que pertencem aos reinos de existência condicionada,
e têm o poder de produzir benefícios para alguns
e malefícios para outros. Como nós, eles têm uma
natureza intrínseca perfeita, mas que está operando
sob condições. Assim, ainda que tenham poder,
não têm sabedoria. Não há benefício dual que seja
permanente, mas nossos olhos estão perturbados
e, quando nos voltamos a esses seres poderosos,
só pedimos coisas impermanentes. Isso aparentemente
é religião, mas não é, embora lide com coisas
sutis. No passado havia religiões de povos específicos,
onde se ensinava a destruir outros povos para
benefício próprio. Esse tipo de crença ainda hoje
está por trás dos infindáveis conflitos e ódios
entre nações e raças. Parece que nossa felicidade
material se dá dentro de um contexto onde é necessário
esforço, luta, mas essa visão é equivocada. Tudo
se resolve com generosidade. A generosidade cria
os méritos que impedem a pessoa de viver uma situação
de miséria. Se a pessoa se acha tão miserável
que não tem nada para oferecer, assim é que é.
A situação imediatamente melhora quando oferecer
algo, nem que seja um sorriso, um olhar de carinho.
No entanto, se a atitude mental é a avidez, há
um poço sem fundo, a pessoa sempre vai se sentir
miserável. Com esse sentimento de carência, só
vê o que falta. A avidez é independente do quanto
temos; é uma atitude mental. Uma pessoa que vive
em condições pobres mas é generosa, provavelmente
não se sente pobre, tem sempre algo a oferecer.
Um dos remédios do Buda para a transformação social
é a tigela que segura na mão esquerda. Ele e os
monges ofereciam-na para ricos e pobres, dando
a eles a oportunidade de gerarem méritos. Mérito
traz resultados imediatos: alimentar um cachorro
traz imediata satisfação. Uma mente miserável
não oferece, pensa que vai faltar mais adiante.
Estamos em meio a seres que buscam a felicidade
sugando os outros. A maneira de lidar com eles
é desejar que se liberem dessa condição de miserabilidade;
se usarmos apenas a noção de justiça social, é
impossível. Entre as felicidades mundanas, que
são finitas, algumas tem curta, média ou longa
duração, mas existe um aspecto que é comum: a
felicidade mundana traz junto uma infelicidade
potencial. Por exemplo, a pessoa bebe, e depois
se acidenta. Ter um filho é uma maravilha, mas
ele também é impermanente, se ele morre é um grande
sofrimento. A gente se alegra porque comprou um
carro, depois se preocupa que não seja arranhado,
roubado, etc.... É uma alegria em dependência,
portanto, sujeita à impermanência. Há situações
onde a gente entra e depois, por pior que seja,
não consegue mais sair. Primeiro reza para conseguir,
depois para se livrar... Existe uma grande alteração
de qualidade na nossa vida quando percebemos que,
independentemente da situação objetiva externa,
podemos dirigir nossos estados mentais na direção
que desejarmos. Focando a mente num estado mental
específico a infelicidade cessa, e a felicidade
surge. Por exemplo, ouvir música, acender incenso.
Ainda que haja aí uma certa liberdade, não é completa,
pois tão logo a música e o incenso terminem, o
estado de felicidade perde seu substrato. No entanto,
enquanto vivíamos aquele estado mental, estávamos
tranqüilos. Se temos um pouco mais de habilidade,
podemos fazer relaxamento ou meditação de tranquilização.
Mas mesmo essas experiências têm início, meio
e fim. Não podemos ficar relaxando o tempo inteiro,
e aí voltamos aos velhos conflitos de sempre.
Vendo isso, queremos isolamento, desejamos morar
num ashram em meio à natureza, nos Himalaias.
Olhamos ao redor e achamos tudo muito terrível.
Também a felicidade através de estados mentais
particulares é finita. Em geral, a nossa motivação
está oculta. Ela tem o poder de transformar qualquer
atividade em atividade de mérito, e também o poder
de estragar tudo. Se fazemos prática espiritual
mas com a motivação de ser melhor do que alguém,
ou porque estamos numa disputa, a nossa mente
está imperfeita, mal colocada; mais adiante colheremos
os frutos dessas ações, e diremos que esta prática
não funciona. Por outro lado, se a motivação é
correta, podemos transformar toda nossa atividade
cotidiana em prática espiritual. A motivação é
que definirá se a nossa vida funcionará, se a
nossa prática frutificará. Já vimos que nossa
motivação básica é buscar felicidade. Todos os
seres se movem nessa mesma direção, então podemos
entendê-los. Não há atividades erradas. Todos
buscamos, de uma forma mais ou menos hábil, aproximar
o que consideramos bom. Todas as religiões brotam
disso. Como se dá no budismo?
2. Buda no país do Kalamas
Uma vez, o Buda Sakiamuni
chegou ao país dos Kalamas. As pessoas logo se
aproximaram e pediram a ele que desse ensinamentos.
Nesse momento alguém se levantou e disse "Senhor,
muitos mestres têm passado por nosso país, oferecendo-nos
seus sábios ensinamentos. Porém, eles sempre dizem
'esqueçam o que vocês já ouviram antes, agora
vou ensinar a verdade definitiva'. Como, neste
momento, devemos ouvir as suas palavras?" O Buda
disse: "É muito simples. Ouçam com cuidado, e
testem. Experimentem em suas vidas; se esse ensinamento
trouxer benefício, sigam-no, diligentemente. Se
não trouxer nenhum benefício, abandonem-no." E
continuou o Buda: "Todos os seres buscam felicidade
e querem se afastar do sofrimento. Se usamos como
método de buscar felicidade, por exemplo, matar
outros seres, isso é interessante?" Todos disseram,
"não, não!" "E roubar, é um método para encontrar
a felicidade?" Todos repetiram "não, não!" E seguiu
o Abençoado enumerando: conduta sexual inadequada,
mentir, criar discórdia, agredir com palavras,
tomar o tempo dos outros com palavras inúteis,
ter má vontade com outros seres, dar conselhos
que resultem em sofrimento aos outros, ser avarento.
E todos repetiram "não, não!" Assim todos concordaram
que estas dez ações são fontes de sofrimento e
não de felicidade e entenderam porque são chamadas
de "as dez ações não-virtuosas". Buda então perguntou,
"uma pessoa dominada pela ignorância, pode ser
levada a matar?" Todos concordaram, "sim, sim,
Abençoado!" Seguindo, perguntou, "uma pessoa dominada
pela ignorância, pode ser levada a roubar?" Todos
concordaram novamente, e responderam "sim, sim,
Abençoado!" E seguiu o Abençoado enumerando as
dez ações não-virtuosas e todos sempre concordavam
que a ignorância poderia causar cada uma das ações.
Depois o Abençoado tomou, a avareza e o ódio e
perguntou se cada um poderia causar, uma à uma,
todas as dez ações não-virtuosas. À cada pergunta
os Kalamas concordaram e responderam, "sim, sim,
Abençoado!" Ao final o Buda explicou: "esta é
a razão pela qual a ignorância, a avareza e o
ódio são chamados de 'os três venenos': são a
raiz de todos os sofrimentos". Causar mal aos
outros talvez tenha um resultado de curta duração,
mas as conseqüências danosas são imediatas, de
curta, média e longa duração. Não é que algum
ser superior sinta-se afetado, nós é que nos sentimos
imediatamente afetados. As dez ações quando praticadas
produzem aparentes vantagens, mas acarretam infelicidades
imediatas e de curta, média e longa duração, para
quem a pratica e para as pessoas ao redor. Quando
alguém chega a pensar "seria bom que tal ser morresse"
isso, em si mesmo, já é sofrimento. Curiosamente,
todos os seres que estão em situações de sofrimento
tem todos os argumentos para justificar suas ações
equivocadas e não sair dali. Quando a pessoa faz
uma ação equivocada, não se dá conta, e pensa
que é bom, que vai trazer benefício para ela.
Isto é o veneno da ignorância atuando. Não percebe
que está construindo um longo carma de sofrimento
para si mesma. A ignorância é a geradora de emoções
perturbadoras subseqüentes: orgulho, inveja, apego,
avareza e raiva. Essas seis emoções perturbadoras
são assim chamadas porque cada uma nos leva a
cometer as dez ações não-virtuosas, construindo
longas infelicidades. O que define a nossa prática
espiritual é a motivação: superar as nossas próprias
dificuldades e sermos capaz de beneficiar os outros
seres. Uma etapa disso é liberar as seis emoções
perturbadoras. Se nos aproximamos com elas de
qualquer prática espiritual, contaminamos tudo.
Mas se buscamos a melhor forma de trazer benefícios,
relativos e absolutos, isso é prática espiritual
verdadeira, ou seja, transforma a nossa vida.
É o que fazem os "bodisatvas", seres que só se
movem impulsionados pelo desejo de beneficiar
os outros. Eles não estão presos em jogos, têm
sabedoria. Nós construímos coisas duais e buscamos
assim felicidade, mas eles sabem que tudo que
é construído, em uma semana, um mês, um ano, uma
vida, se desmanchará. Como vimos, existem as motivações,
que levam a experiências de felicidade - ainda
que impermanentes e dependentes de objetos - onde
o grande segredo é a generosidade. Existem as
motivações e que vão trazer felicidades para uns
e malefícios para outros, como as religiões de
povos. Há também as felicidades sutis, associadas
à música, ao relaxamento, à meditação de tranquilização.
Todas estas motivações são pré-budistas, porque
quando a impermanência vem e a felicidade termina,
o que o budismo tem a oferecer nesse contexto?
Percebemos que estamos aprisionados pelas seis
emoções perturbadoras, que produzem dentro de
nós impulsos que não conseguimos controlar, e
assim, praticamos as dez ações não-virtuosas,
incessantemente construindo sofrimentos imediatos
e futuros. Se conseguimos liberar o orgulho, todos
os seres ao nosso redor se beneficiam, nossa relação
com eles melhora. O mesmo com a raiva, inveja,
apego, ignorância, ou aquisitividade. No exato
momento em que liberamos as seis emoções perturbadoras,
surge um tipo de felicidade que automaticamente
beneficia a todos. Não é um tipo de benefício
que seja arrancado de alguém, ou algo que logo
em seguida temos que devolver; tampouco não é
impermanente como o que podemos comprar ou fazer
com nosso trabalho. É um benefício que está além
de vida e morte, de espaço e tempo, de esperança
e medo. Ao reconhecer isso com o coração, surge
a decisão forte e estável de nos libertarmos,
motivação indispensável para começar a receber
os ensinamentos budistas.
3. Três níveis de motivação
Há três níveis de motivação
budista: no primeiro, estamos voltados a gerar
méritos e obter uma felicidade estável. Nesse
nível estamos voltados a eliminar as seis emoções
perturbadoras e desenvolver as seis emoções positivas
correspondentes. A contradição que surge nessa
etapa é que a pessoa tem o foco de atenção sobre
si mesma. Como conseqüência, há um limite no que
é possível avançar. Praticando longamente nessa
perspectiva, mais adiante ela se dá conta que
o Buda não falou apenas como se libertar do seu
próprio sofrimento, mas, falou do universo e do
sofrimento dos outros seres. Assim, a maturidade
do primeiro nível conduz ao reconhecimento dos
ensinamentos que falam da inseparatividade de
todos os seres e de todas as coisas. O segundo
nível da motivação budista, que é baseado na compaixão
começa nesse ponto. Tirar o foco de si e colocar
no outro. Através da compaixão exercitamos a capacidade
de onisciência da mente iluminada. Mesmo na nossa
atual condição, operamos todo tempo a mente primordial,
não há duas. A compaixão é a primeira das "quatro
qualidades de valor incomensurável" descritas
pelo Buda, é o desejo que o outro se libere das
suas dificuldades. Nesse nível, a prática de todas
as "quatro qualidades incomensuráveis" é fundamental.
O terceiro nível de motivação é a percepção de
que o próprio local onde estamos e tudo que nos
rodeia é perfeito. É a prática da visão pura,
o reconhecimento da natureza verdadeira de todas
as aparências.
4. Examinando a forma de "ver"
Nesse momento é importante
entender que o budismo visa trazer a superação
das raízes do sofrimento, e produzir as bases
para a felicidade temporária e definitiva. Quando
não temos sabedoria, as coisas "ruins" tem nome
e forma. O primeiro passo é descaracterizar isso.
Por exemplo, a raiva não é apenas um fator "interno",
precisa de um panorama "externo" para surgir.
Não adianta criar internamente uma "tampa", a
raiva pode vir a explodir como uma panela de pressão.
Na verdade, aquilo que focamos é inseparável dos
nossos olhos. Esse é o ponto central no budismo.
Quando estamos envolvidos nos nossos sofrimentos,
complicações, temos todo um contexto que valida
esse sofrimento. Há um panorama aonde isso acontece.
Assim também com a felicidade. Nós construímos
a realidade, a paisagem que nos cerca, a partir
do conteúdo do nosso coração. No momento em que
viajamos para "dentro" de nós mesmos e transformamos
o conteúdo cármico, todo o universo "externo"
muda. Quando "somos" filhos, vemos nossos pais
de um jeito, e quando "somos" pais, os vemos de
maneira inteiramente nova. É uma experiência surpreendente
olhar ao redor com olho livre. Os seres que estão
nos atacando são inseparáveis de nós, ou seja,
os nossos olhos e corações os constroem daquela
forma, e eles se tornam inimigos ou não. Pensamos
"a realidade da vida é uma coisa, e se eu não
for trouxa, faço isso ou aquilo". Através da prática
da meditação podemos desarticular essa prisão
automática aos aspectos sutis que provocam impulsos
sob os quais não temos controle e que nos conduzem
a agir baseados nas seis emoções perturbadoras.
Recuperando a estabilidade, como os mestres que
se movem com sabedoria e liberdade em qualquer
circunstância, podemos prestar benefícios aos
outros seres. O que vemos é um espelho de nós.
Esse é o primeiro ponto, é toda mágica do budismo.
O que pensamos que é a realidade externa, é na
verdade reflexo do nosso ser cármico interno.
Quando mudamos o foco, o universo muda. Optamos
por um aspecto interno e esse aspecto cria a realidade
ao nosso redor. Esse ponto é muito importante,
principalmente nas nossas relações. Você olha
um quadro, onde tem um lindo pôr-do-sol, um barquinho,
o lindo céu do fim de tarde, cheio de tons suaves...
Brota uma emoção na mente, apreciamos a paisagem
do quadro. Mas onde, realmente, estão o barco
e o pôr-do-sol tão lindo que nos comove? Hoje
há aspectos que parecem bons, e amanhã não são
mais. É a impermanência. Surpreendentemente ela
atua com relação ao passado, também. No passado
tínhamos um futuro, hoje temos outro e no futuro
será outro ainda. A impermanência toca passado,
presente e futuro e nem mesmo os cientistas escapam
disso. Eles olham para o universo com suas teorias,
e quando elas mudam, o universo inteiro muda -
mesmo seus universos são dependentes de crenças
e suposições. Mas com que olhos nós mesmos vemos
as coisas? Tem dias que parece que está tudo torto.
Quando vocês tiverem essa experiência, experimentem
sentar um pouco e respirar profundamente uma vez,
uma única vez. Tudo muda. É possível controlar,
criar uma maneira positiva e agradável de nos
manifestar? Sim. O Buda um dia sentou debaixo
de uma árvore, e invocou Mara (o senhor das ilusões),
que o atacou de várias maneiras. No entanto, as
flechas de Mara, ao aproximarem-se do Buda, se
transformavam em flores e perfume. O Buda desenvolveu
esta habilidade de olhar com liberdade as coisas,
além das marcas mentais. O que não é construído,
é chamado "natureza de buda"; o que surge produzindo
impulsos e nos faz ver as coisas de um jeito ou
de outro, é chamado "carma". E o carma nos leva
a agir. Ou não agir. É como, por exemplo, decidir
fazer ginástica às 6h da manhã e não conseguir
levantar da cama... A gente decide uma coisa,
mas o impulso surge por si mesmo de um lugar oculto
que nem suspeitamos qual seja. E surge de novo
e de novo, é rebelde... No budismo isso é a manifestação
do próprio carma. Nós não temos liberdade frente
ao carma, decidimos uma coisa, e, no entanto,
a decisão em si não tem força. Quando Sidarta
Gautama se libertou de Mara, disse: "me libertei
daqueles que foram meus senhores por incontáveis
vidas - as disposições mentais e os agregados".
Ele, por incontáveis vidas, até atingir a iluminação,
fez como nós fazemos hoje, olhou para suas disposições
mentais e agregados e pensou "isto sou eu. Ao
final tornou-se o "Buda", que significa liberto.
Quando repousamos sob o quê é estável, podemos
até dançar em meio às flutuações. Não é que a
vida mude propriamente, mas a maneira como olhamos
é que determinará as coisas. Assim mudamos a "sorte".
Isso é o refúgio no Buda. Há liberdade em meio
às coisas do mundo, em meio às confusões. É seguro
como colo de mãe, ou de pai. Mas quando somos
nós os pais e mães, vamos para o colo de quem?
Olhamos ao redor em busca desse colo. Essa natureza
é estável, existe a natureza do absoluto. O nome
não importa, importa é que ela existe. Quando
a nossa compreensão brota disso, isso é o Darma.
A nossa compreensão não é estável porque nós trocamos
de referenciais. Mas o Darma é essa sabedoria
de estabilidade que brota dentro de nós a partir
da percepção de que a "realidade externa ao nosso
redor" é, na verdade, um espelho que reflete nossa
mente cármica. Quando enfrentamos diretamente
os impulsos que nos conduzem para ações equivocadas,
dizemos "quero vencê-los e me livrar disso", mas
o impulso é mais forte que a nossa decisão e nos
desgastamos. Existe uma história da mitologia
grega que ilustra bem isso. Havia na antigüidade
um gigante sanguinário, Anteu, que queria construir,
com ossos humanos, um grande templo em homenagem
à sua mãe, Gea, a Terra. Um dos trabalhos de Hércules,
o herói em luta pela transcendência, era justamente
derrotar Anteu. Quando se enfrentaram, as forças
eram equivalentes, mas após um tempo, Hércules
começou a cansar, enquanto Anteu continuava em
pleno vigor. Nesse momento Palas Athena, protetora
do Hércules, sussurrou-lhe que suspendesse Anteu
do solo. A força de Anteu vinha da Terra, sua
mãe, a materialidade; no momento em que ele perdeu
o contato com sua fonte de força, o Hércules dominou-o
facilmente. Analogamente, Anteu personifica as
seis emoções perturbadoras; elas tem boas razões
de ser no nosso contexto, surgem naturalmente
e são bem aceitas. Por exemplo, fazemos um esforço
egóico para obter uma certa coisa, quando obtemos,
ficamos orgulhosos, é natural. Quando disputamos
uma vaga com alguém, pensamos em pular na frente.
Nós sempre desejamos algo, isso é ótimo. Se alguém
tenta invadir nosso território, nada mais normal
que uma boa raiva. Esse aspecto "terra" é o que
nós faz sentir "vivos", estamos completamente
inseridos nele. Ir diretamente contra não adianta,
vamos cansar como Hércules cansou. Num certo momento
vamos ter que suspender Anteu, ouvir Palas Athena.
5. Iniciando transformações
Como suspender Anteu? Como
produzir o enfraquecimento das seis emoções perturbadoras?
Os ensinamentos do Buda são como remédios, após
a cura não são mais necessários. São um dedo que
aponta a lua: o dedo é para ser esquecido, basta
a lua. É como pegar um ônibus até Porto Alegre;
quando chega lá você deixa o ônibus, não vai levar
para casa. Esse ensinamento é como um hospital,
tão pronto você fica bom, sai de lá. É como esponja,
água e sabão - quando terminamos de lavar um prato,
não deixamos resíduo deles. Há um conjunto de
ensinamentos tradicionais budistas que se chama
"Os Pensamentos que Transformam a Mente" cujo
objetivo é justamente este: quebrar a magia poderosa
que sustenta a paisagem onde as prisões, o carma,
os venenos da mente são desejáveis, justificáveis,
intensos e naturalmente surgidos - é suspender
Anteu. Quebra-se o encanto revelando nossa verdadeira
situação neste cosmos. Em primeiro lugar, a motivação;
fixamos concentradamente o objetivo de superar
as nossas próprias dificuldades e ser capaz de
trazer benefícios não perecíveis aos outros seres.
Depois o primeiro pensamento, que é sobre o Lama.
A cada geração seres estudam, ouvem, realizam
e transmitem esses ensinamentos que tem uma bênção
própria porque são capazes de revelar a nossa
natureza luminosa e maravilhosa. Lembramos dessa
ininterrupta linhagem de seres, que por compaixão,
dedicam suas vidas - uma após a outra - a transmitir
esses ensinamentos que permitem liberar o sofrimento.
Então prestamos homenagem ao Lama. A seguir há
o pensamento sobre a preciosidade da vida humana.
Existem seis reinos aonde nós podemos ter renascimento,
um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito
de experiência específico, ainda assim podemos
vivenciar em corpo humano - embora com muito menos
intensidade - as experiências dos seis reinos.
Por exemplo, o reino dos infernos é vivido por
nós através da experiência de que todas as pessoas
que nos cercam são ruins, o filho, o marido, o
chefe... Para todo lado que olhamos as coisas
são difíceis e só há sofrimento. Através da raiva
e da aversão nos conectamos com esse reino. No
reino dos seres famintos há uma experiência de
carência incessante, eles têm sempre muito pouco
diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos
a essa experiência através da avareza e aquisitividade.
Assim como nos infernos, esses seres também não
praticam. Os seres nos infernos dizem: "estou
sofrendo, tudo é horrível, como eu vou praticar?"
Os seres famintos dizem "eu preciso disso e disso,
como posso praticar?". Depois há o reino dos animais,
eles não praticam porque tão logo eles estejam
com suas necessidades satisfeitas, de barriga
cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Darma.
Entre os reinos superiores, há os deuses. Não
é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano
isso corresponde àqueles que andam de carro importado,
jatinho, não tem problemas de dinheiro, desfrutam
de todas felicidades do mundo material. Os deuses
têm corpos específicos sutis, se deslocam no espaço,
e produzem benefícios para os seres humanos em
dificuldades. O problema é que são benefícios
condicionados, e não do tipo que produz liberação.
Esse reino é o que os seres humanos buscam em
seus sonhos, é a sua perdição... Vivemos almejando
chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando
com isso. Nos conectamos com esse reino através
do orgulho. Já os semideuses tem poder, mas são
competitivos e invejosos; passam o tempo todo
combatendo. A conexão se dá através da inveja.
Os deuses não praticam porque estão imersos em
facilidades e felicidades, então, por quê praticar?
Os semideuses, como estão sempre guerreando, também
não têm tempo para praticar. Os humanos têm maior
vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos
não são tão duradouras. E quando cruzamos de uma
felicidade para uma infelicidade, buscamos os
ensinamentos. Isso é a vida humana comum. Ainda
assim ela é muito rara. Se comparamos a nossa
vida com outros seres, eles são muito mais numerosos.
O corpo humano é raro e improvável. Como nós somos
geridos pelo carma, o nosso renascimento é construído
pela nossa condição cármica. Nós não conseguimos
dirigir esse processo. É como a tartaruga cega,
que a cada cem anos vêm à superfície do oceano,
de águas revoltas, onde há um aro boiando. O renascimento
humano é tão improvável quanto esta tartaruga,
justamente no momento em que sobe à superfície,
conseguir colocar sua cabeça dentro do aro que
estava boiando. A nossa condição humana hoje é
favorável. Os seres humanos têm a possibilidade
de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos
impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos
tempo livre. Isso significa méritos. Já a "vida
humana preciosa" tem características peculiares
que transcendem em muito a vida humana típica.
Quando vivemos em épocas em que os seres de luz
não se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida
parece sem sentido. Na época atual os seres de
sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos
que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos
chegaram até nós e estamos numa região aonde esses
ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade
para ouvi-los. Dizem que há uma vida humana preciosa
quando, além desses fatores, estamos engajados
em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos
dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob domínio
de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de
ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos.
Se não estamos sob essas condições, isso completa
as características da vida humana preciosa. Se
a vida humana é numerosa como as estrelas no céu
noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto
estrelas que são vistas no céu diurno. A pessoa
está engajada em produzir benefícios para todos
os seres. O segundo pensamento é sobre a impermanência.
Todas as coisas são impermanentes. Nós estamos
sempre buscando o que é estável, mas nos enganamos.
Onde estão os meus amigos - inseparáveis - da
escola? A gente nem sabe onde eles estão hoje.
Onde está a casa da nossa infância? A nossa mãe,
pai, irmãos? O primeiro namorado, que foi maravilhoso,
mas sumiu. A nossa experiência é de instabilidade
e transformação constantes. Diz-se no budismo
que o planeta terra vai desaparecer. O que dizer
então das nossas pequenezas? Estamos aqui por
um curto espaço. Esse ensinamento vem para aprendermos
a olhar com o olho correto à cada momento. O olho
incorreto é pensar que tudo é estável. Quando
entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos
para produzir benefícios aos outros seres, este
é o sinal de que os ensinamentos produziram as
transformações que buscávamos. A seguir, o carma.
Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais
não podemos lidar. Esses impulsos produzem as
dez ações não-virtuosas ou as correspondentes
dez ações virtuosas. As ações virtuosas vão produzir
experiências favoráveis - isso também é carma,
carma favorável ou positivo, mérito. São experiências
de felicidade condicionada. O carma se manifesta
em quatro níveis: imediato, a curto, médio e longo
prazo. Por exemplo, se desejamos que alguém morra,
naquele exato instante estamos esquecidos da nossa
condição búdica, luminosa, perfeita, e isso já
é sofrimento. O de curto alcance, é que de novo
e de novo vemos a morte de alguém como solução
para nossos problemas. O de médio alcance vai
se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa
não se sente digna, sente-se impura por dentro,
inferior, e tem uma marca de aversão pelos outros.
Pior que pensar é planejar como fazer. Aí a perturbação
se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais
perturbadores, pode começar a ter pesadelos. Se
fez isso e executou, a experiência que é muito
intensa, vai haver uma intranqüilidade muito grande.
E se o ser morreu, é pior ainda. Ela vai se sentir
perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Então
temos essas quatro etapas cármicas que acompanham
cada ação. Nós temos uma multiplicidade de possibilidades
tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto
outra são condicionadas, podem flutuar, estamos
sempre pulando de um ponto para outro. Estamos
presos nisso, é automático. Esses impulsos estão
a nosso serviço, mas quando eles começam a andar
por si, são carma. Temos vários mecanismos condicionados,
o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que
a gente faça alguma coisa. E por causa do carma
surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que
é o sofrimento. Sempre que operamos com referenciais
duais, o sofrimento é inevitável. Aí surge o pensamento
final que é: eu gostaria de me liberar disso,
revelar minha natureza luminosa, usar de forma
positiva as relações que estou vivendo, beneficiar
os seres. Em meio às confusões do mundo e tendências
cármicas, toda vitória que podemos ter é como
vitória no campo de futebol, frágil, impermanente.
Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza
completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade
de mudar é testada várias vezes, isso é prática
espiritual. Aí nossa paisagem ao redor se transforma
de "samsara", lugar de sofrimento e enganos, em
"terra pura", que é onde praticamos, recebemos
ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres
de sabedoria. Os budas olham o que chamamos de
samsara e vêem a perfeição que ali existe. Somos
como formigas num palácio, não conseguimos reconhecê-lo
com nossos olhos de formiga. Há, então, uma longa
etapa de transformação dos nossos olhos, até que
possamos reconhecê-lo. Em geral, não conseguimos
perceber o valor do benefício real que estamos
recebendo.
6. Ação positiva
Paralelamente ao processo
de transformação das tendências cármicas, o Buda
ensinou a prática ininterrupta das "quatro qualidades
incomensuráveis", que são o método positivo de
manifestação no cotidiano solucionando as confusões
e conflitos. A primeira é a compaixão, o desejo
que os seres realizem sua natureza interna e se
livrem de suas complicações. Essencialmente é
o desejo que o outro supere suas dificuldades
e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente
de "pena". Quando temos pena, estamos validando
a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente
por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer
no outro a sua natureza estável, perfeita, de
luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto
dos jogos que estão produzindo as complicações.
A segunda é o amor, o desejo que o outro seja
feliz, completamente. Não exclui ex-maridos, ex-esposas,
ex-sócios... Depois a alegria, a capacidade de
se alegrar com as alegrias e vitórias dos outros,
pequenas ou grandes. É um poderoso antídoto contra
a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber
as flutuações das alegrias e tristezas da vida;
num momento se tem uma grande alegria, em outro
aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma
serenidade estável frente a essas flutuações e
uma fé permanente, inabalável na natureza de todos
os Budas, que é a sua própria natureza. O Buda
ensinou também os meios de produzir felicidade
nas relações humanas: casamento, namoro, filhos,
trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés
de pensar "o quê vou obter do outro", pensar "o
que posso oferecer". Alegrar-se em oferecer! Se
estamos na dependência do comportamento do outro
para obter felicidade, eventualmente pode até
funcionar, mas quando surgir a impermanência e
o outro flutuar entramos em crise. S.S. XIV Dalai
Lama, prêmio Nobel da Paz, sempre brinca "que
tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe
se o outro sorrir?" Esse tipo de amor está baseado
em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil.
Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana
como caminho espiritual, superando os conflitos
internos e trazendo benefícios a todos os seres.
Alegria!
|