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Zuymyo Joshin Sensei
( Mestra Zen da escola Soto,
superiora do templo "La Demeure Sans Limites")
Para explicar melhor,
falarei sobre a vida do Buda. O que me interessa
é a vida do ser humano como vocês e eu. Nós sabemos
que ele nasceu há 25 séculos, num pequeno reino
ao norte do Nepal, onde seu pai era um rei. E
sabemos que sua mãe morreu uma semana após o seu
nascimento.
De acordo com o
horóscopo, ele poderia se tornar um grande rei,
que conquistaria o mundo, ou então o salvador
de todos os seres. Seu pai preferiu acreditar
na primeira hipótese, pois sendo um rei, queria
um sucessor. Ele pertencia à classe dos guerreiros
e queria um filho também guerreiro. Então, deu-lhe
o nome de Sidarta, "o vencedor". Um dia, veio
à corte um velho mestre que confirmou a predição:
Ele iria salvar todos os seres da vida e da morte.
O rei começou a ficar muito preocupado e decidiu
criar Sidarta dentro de um castelo, de forma que
ele tivesse tudo que a vida pudesse lhe oferecer
e, ao mesmo tempo, que ignorasse as coisas piores
dela. Mas, com a idade de sete anos, Sidarta iria
cumprir a primeira etapa de sua vida de meditação.
Era primavera. Segundo
o costume local e da época, o senhor das terras
foi fazer o primeiro corte na terra com o arado.
Sidarta viu insetos e minhocas cortados pelo ferro
do arado e como aqueles que ficavam feridos eram
comidos por pássaros e animais predadores. Foi
o primeiro encontro de Sidarta com a vida e a
morte, misturados com a alegria e tristeza ao
mesmo tempo. Diz o texto que ele foi sentar-se
sob uma árvore e, mesmo sem saber, entrou em meditação.
Isso apenas aumentou a inquietude do rei, que
decidiu casar seu filho ainda bastante jovem,
pensando que uma mulher e um filho o ligariam
à vida leiga e isso evitaria que ele renunciasse
ao mundo. Assim, aos 16 anos Sidarta casou-se
com uma moça de um reino vizinho. Foram instalados
pelo rei num pequeno palácio com todas as comodidades
necessárias para uma vida tranqüila. Sua esposa
deu à luz um filho que se chamou Raúla, que significa
"a ligação".
É nesse momento
que acontece o episódio chamado "os quatro encontros
de Buda". Um dia, Sidarta partiu com seus servidores
para visitar a cidade e encontrou no caminho um
homem agonizante, com o corpo deformado pela dor,
e perguntou o que vinha a ser aquilo. "Não é nada
de extraordinário, é um homem doente. Todas as
pessoas adoecem", respondeu-lhe o servo. Sidarta
retornou ao palácio muito pensativo. Na próxima
vez que foi à cidade, encontrou no caminho um
velho fraco que tinha perdido a visão. Perguntou
ao servo o que era aquilo e o servo disse: "Nada
de extraordinário. É um velho. Todas as pessoas
serão velhas”. Mais uma vez, Sidarta voltou ao
palácio pensativo. Na sua terceira visita viu
passar um cortejo, onde as pessoas choravam. Eram
os funerais de uma criança que iria ser cremada,
e Sidarta perguntou, "O que é isso?" E o servo
disse, "Nada de extraordinário, são os funerais
de uma criança. Todas as pessoas morrem um dia”.
Finalmente, na sua última visita, ele passou por
um monge errante que pedia esmolas. Sua face refletia
um espírito tranqüilo. Ele caminhava com graça,
sem medo e sem orgulho. Sidarta então percebeu
que assim era quando se quebravam todos os elos
e se compreendia o sofrimento. Resolver o problema
da vida e da morte seria útil a si e a todos os
outros. Penso que essas são etapas que todas as
crianças e todos os jovens atravessam. O encontro
com a morte. O desejo dos pais de proteger os
filhos do sofrimento. Sidarta teve todas essas
lembranças e todos esses sofrimentos atenuados.
O rei, sabendo dessa consciência de seu filho,
resolveu fazer mais e mais festas para que ele
pudesse se alegrar.
Uma noite, ao fim
de uma festa com muitos músicos, dançarinas, cantores,
Sidarta atravessou o salão onde as mulheres dormiam
pelas almofadas e nos cantos da sala. Diante desses
corpos fatigados, diante dessa evidência de vida
e morte, decidiu deixar o palácio. Decidiu buscar
o caminho que levasse ao fim do sofrimento. Ele
tinha 29 anos. Anunciou sua partida ao pai e,
pela última vez, foi ver sua esposa e filho que
dormiam. Partiu com seu cavalo e um servo até
a fronteira do reino de seu pai. Lá chegando,
desceu do cavalo, cortou os próprios cabelos com
a espada, retirou todas as suas jóias e armas,
trocando também suas roupas com as de um caçador
e, sem olhar para trás, entrou na floresta.
Ele sempre tinha
vivido como um príncipe, de maneira extremamente
comportada, e agora aprendera a viver fora, a
dormir na chuva, a comer pouco. Uniu-se a um grupo
de discípulos que faziam meditação. Ali ele aprendeu
a fechar as portas da percepção do corpo e a entrar
em estados profundos de concentração. Contudo,
percebeu que ao sair da concentração o sofrimento
continuava. Durante 3 anos ele visitou diferentes
mestres e começou a dominar métodos de meditação
cada vez mais profundos. Mas, sempre que terminavam
os períodos de meditação, ele descobria que o
sofrimento da vida e da morte permanecia.
Com seus outros
cinco alunos, saiu em busca de umas cavernas onde
passaram a viver em extremo ascetismo. Meditavam
dia e noite, comendo apenas sete grãos de arroz
por dia. Tentavam abandonar as necessidades físicas,
pensando que se o corpo fosse livre o espírito
se libertaria. A imagem de Buda desta época é
mostrada como um verdadeiro esqueleto, mas ele
sentia o sofrimento ainda presente. Um dia, meditando
à beira de um rio, se deu conta de que havia perdido
a alegria. A alegria da meditação, do vento que
refrescava, do canto dos pássaros. Então percebeu
que corpo e espírito eram um, e que torturando
o corpo estava torturando o espírito. Decidiu
buscar outro caminho.
Na manhã seguinte,
tomou banho no rio e caminhou para a vila. Mas
estava muito fraco. Deitou-se na estrada, sendo
encontrado por uma jovem da vila que ia cuidar
dos búfalos. Esta jovem deu-lhe um pouco de leite
que acabara de tirar. Um menino que passava, deu
ao Buda um punhado de ervas que colhera para os
animais. Buda então tomou essas ervas e, usando-as
como almofada, sentou-se sob uma árvore. Foi o
local da iluminação.
Os amigos de Buda, vendo que ele tinha abandonado
a vida ascética, resolveram partir. Sidarta, no
entanto, pensava não ser necessário abandonar
o mundo dos fenômenos. Não era preciso fechar-se
na meditação, enquanto ao seu redor as árvores,
as folhas, a natureza, enfim, o mundo eram a própria
meditação. Então, o futuro Buda, o futuro "desperto",
decidiu continuar sua procura só, ao pé da árvore,
ou morrer ali mesmo. Depois de 30 dias e 30 noites
de meditação, ele entrou num estado mais profundo
do que os que experimentara até ali. Na primeira
parte da noite, ele reviu todas as suas vidas
passadas. Elas somavam milhões e milhões de vidas.
Neste processo, ele sentiu todas as dores, todas
as penas, todas as alegrias de todos os homens.
Na segunda parte da noite, viu universos incontáveis
que surgiam, passavam e desapareciam. Percebeu,
então, que a morte e a vida são a mesma coisa:
aparências. Como o mar e as ondas. Milhares de
vagas que se elevam e caem sem cessar. Mas qual
a diferença entre as ondas e o mar?
Durante a lua cheia
da primavera, quando a última das estrelas pastoras
apareceu, ele atingiu o despertar completo, incomparável,
compreendendo que havia experienciado a verdadeira
natureza do nascimento e da morte. Assim, estendeu
seu braço esquerdo em direção à terra até tocá-la
e, invocando seu testemunho, disse: "Os muros
desta prisão estão derrubados. Por inumeráveis
vidas estive preso, mas doravante estes muros
não mais serão erguidos. Eu não mais morrerei
ou renascerei." Após a iluminação, Buda continuou
mais sete semanas sob aquela árvore, sabendo que
atingiria sua meta e que não fora por nada que
largara tudo. Sabia também que o caminho que encontrara
seria muito difícil de ensinar, de ouvir, de compreender
e de praticar.
Hesitou em ensiná-lo e foi refletir diante de
um lago onde se viam flores de lótus. Algumas
dessas flores estavam sob a água, outras na superfície
e outras acima da superfície. Pensou, então, que
a compreensão dos seres humanos era semelhante
a essa imagem: há os que estão prisioneiros das
ilusões, os que procuram a verdade e os que encontraram
o caminho. E então, resolveu voltar a Benares
para ensinar. Mas, quando seus amigos o viram,
disseram, "Lá vem Sidarta, que traiu, que rompeu
os seus votos. Não vamos cumprimentá-lo, não vamos
fazer nenhuma homenagem à sua chegada". Ao
se aproximar, porém, a figura de Sidarta era tão
radiante, sua aparência tão majestosa, que eles
não puderam se impedir de levantar e oferecer-lhe
uma bebida. Buda disse-lhes: "Não mais me
chamem Sidarta, sou o Buda, o desperto”. Daria
aí seu primeiro ensinamento, que se chamou a "primeira
volta do Darma". Qual é esse ensinamento,
qual é a dificuldade nesse ensinamento, qual significado
pode ter para nós agora, depois de 25 séculos?
Até aqui é como uma história. Uma história de
contato. De contato com a vida, com o sofrimento
e a morte. Todas as crianças passam por isso e,
em seguida, todas as pessoas se tornam "sérias".
Não se tem mais tempo para questionamentos, para
pesquisas científicas. Passa-se a ter responsabilidades.
É preciso ganhar dinheiro, avançar na vida social,
ocupar-se da família. É o que chamamos de senso
de responsabilidade e seriedade. Eu penso que
Buda tinha um grande senso de responsabilidade,
mais amplo que o nosso. Era um senso não limitado
ao seu reino, às suas coisas, à sua mulher e filho.
Seu senso de responsabilidade considerava todos
os seres. O ponto central era a compreensão de
nascimento e morte. Ele observava exatamente aquilo
que tentamos não ver: que nascemos e vamos morrer.
Nada do que fizemos ou temos, nenhuma das pessoas
que amamos poderá nos seguir depois da nossa morte.
Durante toda a vida construímos, mas sobre o vazio,
pois tudo está em permanente mudança.
As civilizações, as eras, nós mesmos, tudo é impermanente.
Nosso rosto, nossos amores e paixões mudam. Externamente,
vemos alternância de saúde, doença, guerra e paz.
Tentamos construir um refúgio mas não é possível,
pois a morte já está em nós mesmos. Mas isto não
quer dizer que se vá viver irresponsavelmente:
"Bom, se é assim, nada tem importância”.
Pelo contrário, reconhecer isso é reconhecer que
todos os seres humanos vivem as mesmas experiências.
Repartimos as mesmas condições. A vida é breve,
as coisas mudam e desejamos ser felizes. Não importa
a que raça pertencemos, não importa em que tempo
estamos. Sempre procuramos a felicidade e fugimos
do sofrimento. Este é nosso ponto básico. Mas
aí as coisas se complicam porque para alcançar
minha felicidade, talvez eu seja obrigada a empurrar
ou derrubar alguém de seu lugar. E, em seguida,
serei alvo de retaliação. Logo, não sendo assim
tão simples, o que é essa felicidade?
O primeiro discurso
do Buda se chama "As Quatro Nobres Verdades".
A primeira delas é a verdade do sofrimento. Todos
conhecem o sofrimento. O sofrimento físico, a
doença, a velhice, o sofrimento psicológico. Mas
o texto diz que um dos sofrimentos também é "estar
perto de quem não amamos e longe das pessoas que
amamos". Há um sofrimento ainda mais sutil,
que é aquele ligado à mudança, à impermanência.
Se as coisas externas mudam e nós mudamos, nada
é permanente. Nada tem continuidade, nem o nosso
sentimento, nem aquilo que procuramos: há sempre
uma ligeira inquietude. Ainda que estejamos completamente
felizes e a situação se apresente como a melhor
possível, sempre há, no fundo, a idéia de que
tudo pode mudar... como um pequeno ponto negro
numa grande superfície branca. Então, tentamos
bloquear as coisas. Tentamos alcançar segurança,
mesmo sabendo que é provisória.
Há uma outra forma de sofrimento. O sofrimento
da frustração. Imaginem que desejamos muito alguma
coisa, algo material, uma situação ou uma pessoa.
Se não pudermos obter isso, vem a frustração.
Porém, se há possibilidade de conseguirmos, então
vivemos de esperanças. Quando não se tem o desejado,
pensamos que, se o tivéssemos, tudo ficaria perfeito
e seríamos felizes. Finalmente, quando vemos nosso
desejo realizado, em geral perde-se o encanto
e o objeto do nosso desejo torna-se menos belo
e brilhante que quando estava distante. Aquilo
parecia ouro, agora é como uma pedra amarelada.
Por outro lado, outras situações também trazem
sofrimento, como pensar que se obtivermos o que
queremos tudo ficará perfeito. E assim vamos nos
repetindo. Essa é a nossa procura por felicidade.
Isto não quer dizer que simplesmente só exista
sofrimento no mundo, mas que nossa própria forma
de buscar a felicidade cria sofrimento.
Estar sempre correndo
atrás de nossos desejos e fugindo de algo que
possa nos alcançar pelas costas é muito estressante.
É uma grande perda de energia. Então, qual a origem
desse sofrimento? Buda conseguiu distinguir três
causas: a avidez, a raiva e a ignorância. Vocês
já viram um bebê quando está mamando? Ele o faz
com uma avidez extraordinária, e é preciso que
assim seja. Se não fosse assim, ele não poderia
sobreviver. A dificuldade é que isso continua.
O "eu quero, eu quero" conduz à luta contra outras
pessoas que querem a mesma coisa. Então surge
a raiva. Se não temos aquilo que queremos, se
há recusa, nossa cólera vai longe, desde palavras
ásperas até a guerra.
Mas a raiz de tudo é a ignorância, a ignorância
da interdependência. Imaginamos um "eu" que quer
obter alguma coisa e os "outros" que também desejam
a mesma coisa, e então nos separamos. E quando
nos separamos, criamos um território para nós
mesmos. Passamos a defendê-lo e os outros tornam-se
inimigos potenciais. Então, vamos enfileirando
muros cada vez mais espessos e altos para nos
proteger, de tal forma que nem sol nem vento conseguem
penetrar. Vestimos uma armadura para a guerra
de todos os dias. Contudo, com o peso cada vez
maior desta armadura, em breve não conseguimos
mais nos mover. Já não se pode dançar com a vida,
com as coisas que chegam.
Temos medo de nós mesmos. Temos medo uns dos outros,
das nossas emoções e do nosso interior. O medo
passa a ser o centro de nossa vida.
A ignorância é isto.
É estar cortado, separado dos outros e de si mesmo.
Perdemos a unidade profunda com o mundo exterior
e conosco mesmo.
A prática é esta: É estar aqui. É voltarmos ao
primeiro instante, quando podíamos estar completamente
aqui. Antes de fugirmos para as lembranças, os
projetos, etc. Estar tranqüilamente no centro
de tudo que existe, sem véus, sem separações com
respeito à felicidade e ao sofrimento. A isto
nós chamamos não-ego, não-sofrimento.
Não que o sofrimento exterior não exista. É que
aceitamos o que existe.
Então, o que é ser livre? É fazer ou ter tudo
que queremos em nossa avidez? Ou é estar livre
destas ilusões que nos atacam sem cessar?
Compreender essa unidade, essa interdependência,
é reconhecer que os outros desejam as mesmas coisas
que nós. Eles têm a percepção de felicidade. Sofrem
pela mesma razão que nós. Este é o início da compaixão.
Há uma história
zen sobre a interdependência. É a história de
uma pessoa que obteve autorização para visitar
o inferno e o paraíso. Chegando no inferno, ela
viu pequenos seres com pequenas cabeças e corpos
enormes, e que tinham ligadas às mãos varinhas
como as que os chineses usam para comer. Todos
se debatiam para alcançar a comida, mas não conseguiam
levá-la à boca, pois as varinhas eram muito compridas.
O visitante viu então a avidez, o desejo pela
comida na face daquelas pessoas.
Em seguida, foi ao paraíso e lá encontrou as mesmas
pessoas, com as mesmas cabecinhas e grandes corpos,
com as mesmas varinhas ligadas nas mãos. Porém,
cada uma utilizava a sua varinha para alimentar
a pessoa à sua frente, e todas as faces estavam
tranqüilas.
Isto é a interdependência entre as pessoas.
Às vezes eu me pergunto quantos minutos por dia
é possível viver sem estar em relação com os outros.
Nós estamos em relação com muitas pessoas que
estão mortas, através do que nos deixaram. Também
estamos em relação com muitas outras coisas, como
a eletricidade, o microfone, os automóveis, as
profissões... Eu seria completamente incapaz de
inventar a eletricidade, mas posso utilizá-la
quando preciso.
Neste momento, no meu templo, há uma horta e nela
trabalham pessoas que necessitam obter seu alimento.
Eu poderia pensar que com algum dinheiro poderia
comprar legumes, mas como não sei plantar, se
não fossem essas pessoas talvez eu não tivesse
nenhum alimento pois não posso comer dinheiro.
Não sei se realmente
poderíamos viver um só minuto sem essa dependência.
Em todo planeta necessitamos do ar, do sol, do
vento e da chuva.
Na França, há um
mestre zen vietnamita que diz que se você é poeta,
nesta folha de papel poderá ver todo o universo.
Aqui nesta folha de papel há o sol, que fez nascer
e crescer as árvores, o vento, a chuva, o lenhador
que cortou a árvore, a comida que este lenhador
comeu, todas as pessoas que prepararam esta comida,
todas as pessoas que trabalharam para fazer este
papel, os que o venderam na livraria. Todo o universo
está na folha de papel. É isto a interdependência.
Nós chamamos isto, nos textos, de a rede de Buda.
Como na rede de pesca, onde cada linha está interligada
uma com a outra, quando se corta uma parte, toda
a rede se desfaz.
Compreender isso é encontrar a origem de nosso
sofrimento. Perceber que quando machucamos alguém
é a nós mesmos que estamos machucando.
Mestre Dogen, fundador
do Soto Zen, escreveu que apenas os loucos pensam
que é necessário colocar antes de tudo as suas
próprias necessidades. O sábio vê que não há diferença
entre ele e os outros. Mas, é claro, os outros
são sempre o problema. Quando se está só tudo
vai bem. Quando se está só é fácil pensar que
somos as pessoas mais gentis e maravilhosas do
mundo. Os outros nos atrapalham o tempo todo.
São obstáculos entre nós e o que gostaríamos de
ter. De modo geral, é assim que pensamos.
Há a história de
um eremita que estava numa caverna sentado por
anos e anos. Lá ele atingiu um samadi muito profundo,
e um dia, por alguma razão, teve de ir à cidade.
Quando chegou lá, havia muita gente e alguém pisou
no seu pé. Ele ficou furioso. É isso, sempre são
os outros que atrapalham nossa prática, interferindo
em nosso caminho espiritual. É justamente a compreensão
de nosso sofrimento que está exposta nas Quatro
Nobres Verdades.
A terceira nobre
verdade fala sobre a possibilidade de colocar
um fim no sofrimento. Não é impossível. Não é
uma meta idealizada. Muitas vezes o Buda foi comparado
a um médico, comparado a quem conhece a doença,
que descreve os sintomas e que dá o remédio para
curá-la.
Como ser justo na vida cotidiana?
É importante nesse caminho a adequada utilização
da palavra, porque penso que intuitivamente sabemos
quando algo é ou não é justo.
Muitas vezes isso fica muito claro, por exemplo,
quando vocês estão com amigos e dizem algo inconveniente,
que talvez fosse melhor não ter dito. Naquele
momento pareceu mais interessante chamar a atenção,
aparentar saber mais que os outros ou ser o primeiro
a dizer aquilo, mas, no fundo, sabíamos que não
era a melhor coisa a ser dita. Não era justo.
Justo significa
adaptado à situação. Uma maneira de manter a atenção
sobre a nossa vida a cada momento. Sobre como
ela é e não como gostaríamos que fosse. Há, então,
um tipo de manipulação interessante. Tentamos
empurrar as pessoas e as coisas para exercer o
nosso desejo. Então dizemos: "Ah, se essa pessoa
pudesse fazer assim ou assado, se pudesse ser
mais gentil..." mas se ela não age como desejamos,
ficamos enraivecidos. E certamente os outros estão
fazendo o mesmo conosco... O estudo das Quatro
Nobres Verdades pode nos fazer compreender comportamentos
de nossa vida cotidiana. Porém, isso é teórico,
uma elaboração mental.
Muitas vezes compreendemos que deveríamos mudar
em alguns aspectos. Nosso caráter, nossa maneira
de ser. É muito difícil mudar. É por isso que
a prática budista está baseada na meditação. Sidarta
é o exemplo. Há muitas falsas idéias sobre a meditação.
Primeiro, vou lhes dizer o que a meditação não
é. Não é um refúgio para nos apartar dos outros,
do mundo. Não é alcançar um pequeno paraíso com
nuvenzinhas e pequenos anjos que pulam por todo
lado. Não é sentar para olhar o próprio umbigo,
nem para fazer um estudo psicológico de si mesmo,
nem para ter tempo de cuidar de tudo que deve
ser feito durante o dia. Não é relaxamento. Praticar
meditação é estar preparado para olhar aquilo
que está dentro de nós, nossa cólera, medo e frustração.
Tudo o que fechou
nosso coração a nós mesmos e aos outros. Meditar
é um longo trabalho, física e moralmente doloroso.
Pode ser mesmo aborrecido, mas é absolutamente
necessário. às vezes utilizamos uma comparação:
Não podemos ver através de um copo com água lamacenta,
devido às impurezas em suspensão. Se colocarmos
o copo tranqüilamente sobre a mesa, aos poucos
as impurezas vão decantando e a água vai ficando
límpida, pura e transparente. Da mesma forma,
nosso espírito está constantemente agitado com
projetos, desejos, contentamentos, descontentamentos
e recordações. É impressionante nossa primeira
meditação, quando vemos tudo isso em nossa cabeça.
Nos textos clássicos, o espírito é comparado a
um macaco. O macaco é muito interessante de ser
observado. Ele pega um objeto, olha, larga, pega
um outro, larga... Está sempre em movimento, nunca
pára. Pode ser lúdico observá-lo assim, mas se
imaginarmos o macaco conosco durante as 24 horas
do dia, seria muito cansativo. Contudo, nós fazemos
a mesma coisa. Nossa mente não repousa. Aí está
a importância da meditação.
É preciso prestar
atenção, pois começamos, evidentemente, com a
idéia de nos tornarmos uma pessoa melhor. Vamos
deixar de sofrer, vamos estar em harmonia com
as demais pessoas. Começamos logo por nossos desejos.
Não são desejos materiais, são desejos espirituais.
Além disso, temos a consciência tranqüila, pois
dizemos: "Ah, que pessoa maravilhosa, que ser
espiritual estou me tornando”. Mas a meditação,
o zazen, não é isso. É apenas estar lá, sentado.
Mesmo sendo desagradável. Só quando estamos enraizados
em nós mesmos é que podemos formar uma relação
apropriada conosco e com os outros. Uma relação
direta, não afetada por nossos sonhos e ilusões.
É como uma roda. É necessário um ponto fixo para
que a roda possa girar. Todas as vias espirituais
oferecem um caminho. É preciso fazer uma escolha
e segui-la com determinação. Não é necessário
para isso tornar-se monge. Não é necessário seguir
o ensinamento búdico a ponto de deixar a família,
os bens, mas será necessário abandonar muitas
coisas no caminho, para que possamos avançar mais
levemente, sem transportarmos tanto "peso".
Gosto muito da idéia
de dançar. Dançar com a vida, levemente, em cada
instante.
Um samurai muito bonito, com sua grande espada,
seu uniforme, vai ao encontro de um monge zen
e lhe diz: "Ensine-me o Darma do Buda, diga-me
o que é o inferno e o que é o paraíso”. O pequeno
monge olha para o samurai de alto a baixo e pergunta:
"O que queres que te ensine? Olhe para você mesmo,
veja o que você parece. Não é sequer um samurai
com esta espada enferrujada”. - O samurai, ouvindo
isso, sacou a espada pronto para cortar a cabeça
do monge, que lhe diz: "Aqui se abrem as portas
do inferno." O samurai compreende e guarda a sua
espada. O monge então lhe diz: “Aqui se abrem
as portas do paraíso." Não podemos sempre dizer
que as coisas estão lá fora, no exterior. É necessário
voltar-se para si mesmo. A nossa prática não é
uma prática egoísta. Eu realmente penso que tornando
mais leve nosso sofrimento, estamos diminuindo
o sofrimento de todo o mundo.
É por isso que o
ensinamento de 25 séculos do Buda é sempre atual,
condizente com nossa vida de hoje. Por isso tornei-me
uma monja. Quando comecei a praticar a meditação,
pensei: "É a coisa mais importante do mundo”.
Fui então para o Japão. Procurei um templo e um
mestre. Quando os encontrei, raspei a cabeça e
me tornei monja. Fiquei vários anos nesse templo
e recebi de meu mestre o selo da transmissão "mestre-discípulo",
conforme a tradição. Meu mestre me pediu que voltasse
a meu país, a França, e abrisse um mosteiro onde
pudesse repassar o que recebi. Ali chegam pessoas
leigas para viver, em retiros de alguns dias,
uma semana, um mês, a vida de um monge zen: meditação
e trabalho.
Depois vim para
a América Latina, como fez meu mestre, e é a oportunidade
que tenho de falar, de dar este ensinamento. Estou
muito contente de estar aqui esta noite. Há um
poema zen que aprecio muito e que diz: "Como a
andorinha que voa no céu, completamente livre”.
Este é o ensinamento.
Muito obrigada.
Perguntemos ao mestre
Zen Eihei Dogên o que é estudar o budismo e ele
nos dirá:
Estudar o budismo
é estudar a si mesmo;
Estudar a si mesmo é esquecer a si mesmo;
Esquecer a si mesmo é estar identificado com todas
as coisas.
Estar identificado com todas as coisas é tornar-se
a própria VERDADE.
O propósito do estudo do budismo não é estudar
budismo, mas estudar a nós mesmos. É impossível
estudar a nós mesmos sem algum ensinamento. Para
saber o que é a água, você precisa da ciência,
e o cientista, de um laboratório. No laboratório
há vários meios de estudar o que é a água. Assim
torna-se possível saber os elementos que ela contém,
quais as diferentes formas que assume e qual a
sua natureza. Contudo, é impossível saber por
esse meio o que é a água em si. Acontece o mesmo
conosco. Precisamos de algumas instruções, mas
só pelo estudo do que foi ensinado não é possível
saber o que "eu" sou em mim mesmo. Através do
ensino podemos compreender nossa natureza humana.
Porém, os ensinamentos não são nós mesmos: são
uma explicação sobre nós. Portanto, se você se
apegar ao ensinamento ou ao mestre, cairá em um
grande erro2.
Por isso Budha aconselhava um exame crítico e
experimental dos seus ensinamentos antes de aceita-los
por reverência a ele.
Assim pregava:
“Exatamente como as pessoas verificam a pureza
do ouro queimando-o no fogo ou, cortando-o e o
examinando numa pedra de toque, da mesma forma,
ó monges, deveis aceitar minhas palavras depois
de submetê-las a um exame crítico e não por reverencia
a mim”.
Isso sugere que existem duas formas principais
de abordar os ensinamentos budistas, de acordo
com a capacidade do praticante: a forma inteligente
e a forma menos inteligente. A forma inteligente
consiste em abordar os textos sagrados e os comentários
com ceticismo e com a mente aberta, além de submeter
o conteúdo desses ensinamentos a um exame, por
meio da comparação com nossa própria experiência
e compreensão. Então, à medida que vai crescendo
nossa compreensão, também crescerá nossa convicção
no conteúdo dos textos, assim como nossa admiração
pelos ensinamentos do Buda como um todo. Uma pessoa
com essa visão não seguirá um ensinamento ou um
texto sagrado simplesmente por ser ele atribuído
a um mestre famoso ou a alguém digno de respeito;
mas a validade do conteúdo do texto será julgada
com base na própria compreensão dessa pessoa,
derivada de análise e investigação pessoal.
O princípio budista das Quatro Confianças aplica-se
a essa abordagem inteligente. Elas se expressam
como se segue:
Confie na mensagem do mestre, não na pessoa do
mestre;
Confie no significado, não apenas nas palavras;
Confie no significado definitivo; não no provisório;
Confie na sua mente de sabedoria, não na sua
mente normal.
Em outras palavras, não deveríamos confiar na
fama, no status nem em nenhum outro atributo do
mestre, mas, sim, no que ele diz. Não deveríamos
confiar nas palavras em si, mas no seu significado.
Não deveríamos confiar no significado provisório,
mas no significado definitivo; e, finalmente,
não deveríamos confiar na mera compreensão intelectual
do significado, mas, sim, na profunda experiência
e conscientização. Essa é a forma inteligente
de enfocar os ensinamentos budistas.
Portanto, à medida que vocês se aproximam da próxima
parte destes ensinamentos, sugiro que procurem
reter a atitude de ceticismo aberto de que acabei
de falar.
Após descobrir a sua iluminação Siddharta Gautama3
pregou aos seus cinco amigos ascetas:
O PRIMEIRO SERMÃO
DE BUDHA
O primeiro sermão
de Buddha Shakyamuni foi dado aos cinco ascetas
que estavam no Parque das Gazelas em Sarnath,
Benares. Nesse sermão, Buddha expôs os ensinamentos
fundamentais do budismo: as quatro verdades nobres
(sânsc. chatu-arya-satya).
Depois da Iluminação,
Budha resolveu ensinar a Lei (Dharma).
Decidiu fazê-lo primeiramente a seus cinco antigos
companheiros de ascetismo: Kyojinno, Makanama,
Haba, Ashabajitto e Batara. Estes se encontravam
então no Parque das Gazelas, em Benares. Para
lá se dirigiu então o Perfeito, encontrando-os
sempre entregues à prática do ascetismo. Quando
Budha abandonara as mortificações, eles tinham
tomado sua decisão por uma fraqueza e agora só
se lembravam dele com desprezo.
Ao ver que Budha se aproximava, combinaram não
se levantar para cumprimentá-lo e só falar com
ele no caso de serem interpelados.
Budha aproximou-se deles calmamente. Embora fingindo
indiferença, os cinco examinaram-lhe o semblante.
Não viram nele quaisquer sinais de frustração
ou arrependimento. O antigo companheiro mostrava-se
calmo e solene.
Quando Budha chegou bem perto dos cinco, estes
automaticamente se levantaram e o saudaram.
Budha então perguntou-lhes:
- Porque vos levantais para me cumprimentar? Não
tínheis combinado ficar indiferentes?
Os cinco começaram a se sentir pouco à vontade.
- Estais cançado, Gautama? – perguntou um deles.
- De agora em diante, não me chameis mais pelo
nome. Eu agora sou Bhuda, o Desperto, o Pai de
todos os seres.
Kyojinnyo, muito admirado disse:
- Quando vos transformastes em Budha? Se abandosnaste
o ascetismo por não consegui-lo, como tereis alcançado
a Iluminação?
- Kyojinnyo, não podeis julgar minha iluminação
com espírito acanhado. O sofrimento físico traz
perturbação à mente. O conforto físico traz apego
às paixões. Nem ascetismo nem prazer permitem
realizar o Caminho. É preciso abandonar esses
dois extremos e seguir o Caminho do Meio. Este
é o Óctuplo Caminho, composto de: Visão Correta,
Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação Correta,
Esforço Correto, Intenção Correta e Meditação
Correta. Aquele que praticar isso alcançará a
paz espiritual e se livrará dos tormentos dos
nascimento, da velhice e da morte. Eu pratiquei
o Caminho do Meio e obtive a Iluminação.
As palavras de Budha encheram os cinco de grande
alegria. Vendo que eles já estavam preparados
para ouvir a Verdade, o Perfeito prosseguiu:
- Como sabeis, a vida é plena de sofrimento: sofrimento
de nascer, de envelhecer, de adoecer e sofrimento
de morrer. Há ainda o sofrimento da separação
dos entes queridos, o sofrimento de ser obrigado
a permanecer ligado a algo que se detesta, o sofrimento
de não se obter o que se deseja e o sofrimento
de perder glórias e prazeres. Muitos outros há
ainda. Os seres que têm forma e os que não têm
forma, os de uma, duas, quatro ou mais pernas,
todos os seres vivos, enfim, estão sujeitos ao
sofrimento.
Esta é a Nobre Verdade
da Origem do Sofrimento.
Os cinco concordaram com as palavras de Budha,
que prosseguiu:
- A fonte desse sofrimento é a idéia de existência
de um “eu” substancial. Todos os seres que se
deixam prender à idéia de um “eu” tornam-se sujeitos
a tais sofrimentos. O desejo, a cólera e a ignorância
são também causados pelo “eu”. Estes três venenos
são a origem de todos os sofrimentos. Todos os
seres vivos que são presa desses três venenos
estão entregues ao sofrimento. Tal é a Nobre verdade
da Origem do Sofrimento. O sofrimento deve ser
extraído. Se eliminares a idéia de “eu”, o desejo,
a cólera e a ignorância e os sofrimentos cessarão.
Esta é a Nobre verdade da Cessação do Sofrimento.
Para se obter a cessação, é necessária a prática
do Óctuplo Caminho. Esta é a Nobre Verdade do
Caminho da Cessação do Sofrimento. Os cinco não
puderam deixar de concordar com o ensinamento
do Perfeito, que continuou:
- Amigos, prestai bastante atenção: primeiramente,
é preciso conhecer a existência do sofrimento.
Deve-se depois destruir a sua origem. Para isso,
deve-se compreender que a cessação do sofrimento
é possível. Para consegui-la, deve-se então praticar
o Caminho. Eu conheci a existência do sofrimento,
destruí a sua origem, compreendi sua cessação
e pratiquei o Caminho. Assim obtive a Suprema
Iluminação.
A Existência, a Origem, a Cessação e o caminho
da Cessação do Sofrimento são as Quatro Nobres
verdades. Sem conhecê-las, ninguém pode conseguir
a Iluminação. Quem as compreender perfeitamente,
pode-se libertar de todos os sofrimentos.
Após ouvir estas palavras, os cinco decidiram
tornar-se discípulos de Budha. Para certificar-se
de que eles realmente compreenderam as verdades
que lhes haviam sido explicadas, o Perfeito perguntou-lhes:
- Ó monges! Os fenômenos materiais, a percepção,
as idéias, a vontade e a consciência são estáveis
ou impermanentes? São ou não são sofrimentos?
São ou não são vazios Têm ou não têm um “eu”?
- Os cinco responderam:
- Ó Venerável! Os fenômenos materiais, a percepção,
as idéias, a vontade e a consciência são impermanentes,
são sofrimento, são vazios e não têm um “eu”.
Budha então disse:
- Já vos libertaste, já destruístes aquilo que
dá origem ao sofrimento. Jamais voltareis a sofrer.
Agora, em verdade, temos reunidos os Três Tesouros:
O Budha, o Dharma, ou a lei ensinada pelo Budha,
e o Sangha, ou a Comunidade dos discípulos que
praticam a Lei (Dharma). Graças a esses Três Tesouros,
meu ensinamento espalhar-se-á por todo o mundo
e as pessoas lograrão obter a Libertação.
Os cinco discípulos, satisfeitos por ouvir tais
palavras do Mestre, agradeceram e saudaram-no.
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