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Por Claudio da Matta
 
 

" O nome dessa coluna e a inspiração de colocá-la em prática, surgiu da percepção geral de que a reflexão no meio do surf anda meio devagar. "

‘Mané’ Verão

Eu ia, e ainda vou, podem esperar, escrever sobre a confusão que é o método utilizado por surfistas, bodyboarders e simpatizantes para medir o tamanho das ondas. Mas esse calor me avisa que o verão está aqui, batendo na porta, e esse assunto de tamanho de onda é mais apropriado para outra época. É que durante o verão (que começa no hemisfério sul quando o Sol alcança o solstício de dezembro, no dia 21, e termina quando o astro rei atinge o equinócio de março, dia 20), as frentes de massa fria, principal fonte de ondulação nas regiões sul, sudeste e parte do nordeste, começam a encontrar barreiras e freqüentemente se dissipam antes de causarem algum balanço no mar.

Eu não gosto de calor e nem de praia cheia, mas o que mais me chateia durante o verão é a falta de ondas (pode incluir o trânsito também!). Tinha uma época que o único atrativo da praia era pegar onda e a estação que se aproxima era o prenúncio do tédio. Eu ficava aqui por Pendotiba, com meu amigo Tim, apedrejando calango, andando de bicicleta, fazendo planos sobre a montagem de uma oficina no fundo do quintal e sonhando com o futuro e a liberdade que ele prometia. As viagens para lugares como Puerto Escondido, Peru e Havaí, destinos que os viciados em surfe conhecem de cor e salteado pelas revistas, eram os mais imaginados. Tinha também o sonho dos nossos pais serem transferidos para um lugar cheio de ondas, tipo Saquarema, mas as chances eram remotas e a gente sabia disso.

Depois veio a fase Arraial do Cabo e o verão começou a ficar mais divertido. A região dos lagos é o paraíso das merrecas e quando não tinha quase nenhuma ondulação, na Praia Brava de Arraial sempre dava para ficar em pé na prancha. No mínimo via-se um visual deslumbrante, seja a vista dos penhascos e aquela água cristalina ou alguma gata mais atirada, fazendo um topless. Às vezes, junto com Raldrei, íamos duas vezes no mesmo dia naquele pequeno pedaço de praia. Era saúde pura, certeza de cansaço na noitada na pracinha Cova da Onça.

Praia Brava de Arraial do Cabo. Foto: Claudio da Matta

Como isso aqui não é uma biografia a gente pula os anos e deixa de citar nomes. O verão teve outro brilho especial quando um trem formado mais ou menos pelo acaso, bancado com o dinheiro do primeiro estágio, nos levou para o Pacífico. Montañita, no Equador, era o verdadeiro céu na terra. Direitas clássicas e a liberdade sonhada e conquistada (comprada) por cerca de 26 dias inesquecíveis. As amizades feitas nessa viagem duram até hoje e me trouxeram outras salvações para aplacar o tédio causado pela escassez de ondas durante a estação quente e molhada que se aproxima.

Pôr do sol no Pacífico. Equador. Foto: Claudio da Matta

Situação inusitada. Ao invés de partir pela ‘serrinha’ e se juntar à multidão que lota o norte do Estado, Kristian botou outra pilha. Eu já tinha ido à Ilha Grande, mas ainda não tinha percorrido a Rio-Santos e muito menos conhecido as inúmeras opções de lazer (surfe) que a parte sul do litoral do Rio e norte de São Paulo ofereciam. Tudo bem que no verão é a mesma escassez de onda, mas ainda tem a compensação de se estar mais próximo de onde vem as frentes-frias, o que dá uma ilusão quase confortante de uma maior possibilidade do mar subir. O que cedo ou tarde acontecia (como também acontecia lá em Arraial).

Paraíso escondido no sul do estado do Rio. Foto: Claudio da Matta

Mais um final de semana se aproxima, o calor anuncia o verão, mas uma nova frente-fria chegou nessa última quinta (tomara que não seja a derradeira da primavera!), trazendo expectativa para os que gostam de mar agitado. Enfraquecida pelo calor, seria perfeito se ela trouxesse vento e chuva até a tarde de sexta, ajeitando-se para um final de semana de sol e surfe. De partida para a Rio-Santos, cheio de expectativas e lembranças, eu espero que todos tenham um ótimo sábado e domingo. Para os que estão lendo o Surfe Pensado depois do final de semana, que a minha previsão do que seria a perfeição tenha se concretizado e que essa semana seja repleta de plantio e colheita.
Até a próxima!

Renato Fraga curte o verão no sul do estado (RJ) . Foto: Claudio da Matta

 

* * *

As mensagens de retorno continuam chegando. Em termos de qualidade elas estão em alto nível. A mensagem abaixo, de um grande surfista, me fez perceber que não é só o surfe que rejuvenesce as pessoas e sim toda prática que trabalhe corpo e mente feita com respeito e perseverança.

Perseverança, de perseverar:
[Do lat. perseverare.]
1. Conservar-se firme e constante; persistir, prosseguir, continuar.
2. Continuar a ser ou ficar; manter-se, permanecer, conservar-se, persistir.
3. Conservar a sua força ou ação; continuar, perdurar, subsistir, persistir.
4. Ter ou mostrar perseverança, firmeza; permanecer sem mudar ou sem variar de intento.
Fonte: Dicionário Aurélio


“O surfe é fonte de inspiração e educação daquelas pessoas que se dedicam. Falo do surfe principalmente porque nele me realizo como esportista e nele me inspiro. Aos cépticos, informo que qualquer outro esporte praticado com respeito e perseverança também desperta nas pessoas estes ensinamentos. Ensinamentos que considero de vital importância, literalmente falando, para se ter na 1ª, 2ª, 3ª idades, uma vida saudável. Aproveitando o ensejo de sua coluna, ultimamente também por questões pessoais, venho reparando muitas pessoas da terceira idade e as que estão chegando nela, sem opções de como se manterem saudáveis. Quando jovens, procuramos nos satisfazer com esportes que nossos familiares e amigos próximos já os fazem. A medida que a vida vai passando e as responsabilidades individuais aumentam, decisões são tomadas e suas conseqüências a médio e longo prazo serão sentidas, para o bem ou para o mal. Conheço pessoas da "2ª" idade que, em função de suas decisões, não sentem mais amor por uma atividade esportiva. Cada dia escolhem algo para fazer e nunca estão satisfeitos: academia, corrida, natação, trilhas, etc, etc, etc. Na minha opinião, cabe aos pais e demais educadores despertarem nas pessoas suas afinidades esportivas para que tenham na terceira idade uma oportunidade de se manterem inspirados. Particularmente, fui incentivado apenas por amigos pois naquela época - e acredito que na sua também - o surf era um esporte marginalizado. Assim como você, dou graças a Deus de ter tido perseverança, e isso não faltou nas minhas decisões. Já me imaginei com 60 anos várias vezes na minha vida e jamais me imaginei sem uma prancha embaixo dos braços. No Havaí pude observar que para o surf não existe idade e sim dificuldade. Dificuldade que, com nossa perseverança, perde forças. Ao surf serei eternamente grato! A você deixo a seguinte mensagem: admiro-o como pessoa e como esporsurfista!
Saúde e paz!”

– Guilherme Reis ‘Guita’ – 10/11/03

 

Claudio da Matta

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