| |
" O nome dessa coluna e a inspiração de colocá-la
em prática, surgiu da percepção geral de que a
reflexão no meio do surf anda meio devagar. "
A
Sala de Cinema Baden Powell, em Copacabana,
recebeu um público diferente durante algumas sessões
do Festival de Cinema do Rio 2003. Ao invés das
conversas sobre Fellini e Glauber Rocha ou dos
comentários sobre as obras que não chegarão ao
grande circuito, o papo antes da exibição do filme
‘Step into Liquid’ (‘Na onda certa’),
na primeira semana de outubro, era sobre as ondinhas
que rolaram de manhã, próximo ao Posto Cinco do
mesmo bairro.

O estilo das roupas também denunciava o astral,
era Rip Curl pra cá, Quiksilver pra lá, camisa
de campeonato de surfe para acolá, bem diferente
da quase excentricidade da indumentária do público
que respira cinema. E o bronzeado, então, nem
se fala!
Estou
aqui a falar de estereótipos, exatamente o contrário
do que o americano Dana Brown (filho de Bruce
Brown, dos Endless Summer Um e Dois, de 1966 e
1994, respectivamente) procurou mostrar em seu
filme. Ao apontar sua lente para vários tipos
de surfistas e lugares propícios para a prática
do surfe, uma das coisas que Dana quis dizer foi
que hoje em dia, com o crescimento que o esporte
atingiu, qualquer pessoa que você esbarra na rua
pode ser um membro da tribo, independente da idade
e da roupa que ele ou ela está usando ou do que
esse alguém faz para ganhar a vida.

Desde
os caras que pegam ondas gigantescas de ‘tow in’
(surfe rebocado) e passam o ano dedicados a isso,
no nível de preparo de surfe mais elevado do mundo,
ao grupo que surfa apenas alguns dias por temporada,
em condições especiais, como quando entram as
tempestades de vento no Lago Michigan ou na passagem
de navios rebocadores pelas águas calmas do Texas,
ambos nos EUA. Histórias que, segundo o mago havaiano
Gerry Lopez, surfista metafísico, se entrelaçam.
Situações de vida que se completam e giram ao
redor única e exclusivamente do surfe, da prática
de descer e correr as ondas de pé sobre uma prancha,
da arte de andar sobre as águas seja em morras
de 66 pés (cerca de 20 metros!), em Cortez Bank,
nos EUA, ou em marolas de um palmo e meio de altura,
no Vietnã. O sentimento do surfe está onde menos
se imagina.
Me
interesso muito quando as pessoas se concentram
em explicar e diferenciar o surfe dos outros esportes
e estilos de vida e descrever o que sentimos quando
estamos impregnados pela satisfação de pegar ondas.
Algumas vezes é difícil conviver com o sentimento
indescritível de uma boa manhã de surfe perante
a sociedade capitalista e sua ótica ‘produtiva’.
Como explicar isso para quem não surfa?! Sam George
e outros surfistas pesquisados no mais novo documentário
dos Brown falam sobre o assunto. A mãe de um amigo,
por exemplo, gostou de saber que a associação
que se faz entre surfe e vagabundagem é comum
nos quatro cantos do planeta e não só aqui em
Itacoatiara.
Uns
comparam o surfe com a música, ou seja, a arte,
quando não se tem onde chegar. O outro, como
Dale Webster, não consegue ficar oito horas dentro
de um escritório, mas pode esperar muito pela
hora certa de entrar na água e se dedicar a surfar
todos os dias, todos (!), por mais de 25 anos.
Como esporte, não há quadra, pista ou tabuleiro
que se compare ao mar. Não digo que é melhor ou
pior, só não existe como comparar. Ganhar ou perder
no surfe é relativo. Muitas vezes são horas dedicadas
a uma espera que rende alguns segundos que ficam
marcados por dias ou meses em nossas memórias.
Enfim, não tem como falar de tudo e nem contar
o filme inteiro, que tem muito mais a dizer. Agora
é torcer para que ‘Step into Liquid’ entre no
grande circuito brasileiro e saia logo em DVD.
Até!
Claudio
da Matta, jornalista e viciado em surfe é
contra estereótipos.
Ficha
Técnica:
Título:
Step into Liquid (Na onda certa)
Direção
e roteiro: Dana Brown Fotografia: John-Paul
Beeghly
Duração:
88 min.
Assista
ao trailer em www.stepintoliquid.com
Clicando
aqui você acompanha uma entrevista
com Pedro Falcão o atual "Tour
Manager" (Gerente do Circuito) da Associação
Brasileira de Surf Profissional (Abrasp),
concedida em setembro de 2003, na praia
da Macumba, Rio de Janeiro, e fica
sabendo, entre outras coisas, o que falta para
a praia de Itacoatiara sediar uma etapa
do circuito brasileiro de surf profissional. Até!
Claudio
da Matta
surfpensado@itacoatiara.com
|