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Por Claudio da Matta
 
 


Tudo muda (ou não), mas que o tempo passa, passa.

Outro dia estava refletindo como o interesse pelo surfe se modifica (ou não)
dentro das pessoas ao longo do tempo. Antes aquilo parece algo intocável,
coisa de gente grande, forte, com um ar quase cinematográfico. Aos poucos
você vai fazendo parte daquilo, molequinho (ou não), começa a ficar em pé na
prancha e coisa e tal. O vírus te fisga, f#%*u! Passa-se anos, décadas, só
pensando naquilo. Passa-se perrengues de todas as possíveis (e impossíveis)
maneiras. Faz-se de tudo para conseguir chegar até as ondas. Viaja-se em
todos os tipos de condução, nas condições mais precárias. Surfa-se em
qualquer tipo de onda, nas piores inclusive, talvez na maior parte de todo
esse tempo mencionado nas linhas de cima. Sonha-se muito! Quem nunca se
imaginou no alto de um pódio, por exemplo?! De repente alguns leitores já
realizaram esse sonho (não sei, surfista bom de campeonato geralmente não lê,
né?). Garanto que a maioria não. Mais que sonhar com campeonato, imagina-se
muito a atuação perfeita, numa onda mais que perfeita. Geralmente um tubo
grande, largo e translúcido, saída seca, clássica, galera vibrando (tudo bem
que geralmente, quase sempre, 99,9% das vezes ninguém vê a sua melhor onda
do dia ou da vida, isso é normal).

Campeonatos de surfe são necessários. Ponto final. Mas... Uma época da vida
você vive a expectativa de um campeonato que vai rolar no final de semana, na
sua praia. 'Será que vai dar onda?', 'Vai correr?!', 'E se o mar ficar
grande? Ah! Toma detergente e diz que ta passando mal!'. Rola uma atmosfera
de euforia. Sei que muito marmanjo vive isso ainda. Aquela coisa de ver quem
ta surfando bem... Não sei se é o formato envelhecido das competições ou a
exclusão da maioria dos surfistas da 'área de competição'. A real é que
campeonato de surfe é meio chato. Som alto na praia, locutor falando sem
parar, pedindo pro pessoal sair da frente que ta atrapalhando, o melhor pico
da praia reservado para poucos... Não sei não (não sei nada!). Mas não vamos
ficar falando muito disso pra depois não virem falar que estamos 'colocando
areia'. Como disse antes, campeonatos de surfe são necessários. Mas bem que
podiam tentar modificar o formato, envolver os surfistas do pico que não
sonham mais em ser o Kelly Isblater ou o Pedro Muller e deixar a discotecagem
(e os auto falantes) direcionados pra galera próxima do palanque e não pra
praia inteira, que reúne gostos musicais os mais variados.

Na verdade eu posso falar de campeonato à vontade. Na minha meteórica
carreira no meio do surfe, que continua existindo, diga-se de passagem,
devido a essa coluna que você está lendo até agora e eu agradeço (mesmo que
estejas odiando-a), eu já trabalhei em inúmeros campeonatos de surfe. De
WCTs, WQSs a provas municipais atuei como jornalista em vários, durante
alguns anos. Entrevistei alguns dos maiores e melhores surfistas do mundo,
bem como várias promessas, dentre elas algumas que floresceram, ou seja, 'se
deram bem'. Portanto, posso falar e criticar sem pudores. Que fique claro que
não quero desfazer o trabalho de ninguém. Mesmo hoje assumindo o meu torto
olhar para as competições do esporte que amo, continuo achando que elas são
uma boa maneira de educar adolescentes para a vida e continuo torcendo para
que o pessoal da ASN consiga trazer o circuito nacional para Itacoatiara.
Contradição pouca é bobagem. Ponto final no assunto.

Mas, eu ia falando de como o sentimento da gente vai se modificando... O
olhar também. Hoje não sei mais a cara dos surfistas de ponta da nova
geração, por exemplo. Sei alguns nomes, posso distinguir o Mick
Fanning 'quebrando' e mais alguns outros, porém, a maioria passa
desapercebida (fora d'água). Pode ser coisa da idade. Ou não. Faço parte de
um grupo que conheceu meio mundo principalmente através das revistas. Posso
ver uma foto ou um vídeo e identificar vários picos ao redor do globo, como
Puerto Escondido, Pipeline, Sunset, OTW, Waimea, Jeffrey's Bay, Todos Santos e talvez outros (dos mencionados, nunca estive de corpo presente em nenhum). Também me considero um pouco especialista em reconhecer em qual praia foi gravado aquele tal comercial de TV. Geralmente a galera da publicidade
escolhe praias frequentadas por surfistas. Não sei por que. Já vi a nossa
querida Itacoatiara, o Grumari, Maresias, o Pontal do Atalaia, a Cacimba e
etc. A verdade, mais uma vez, é que o surfista é privilegiado, pois freqüenta
um espaço lindo (ainda que sempre ameaçado) com uma propriedade meio de dono. Quem pode dizer que não é dono?! O cara chega lá de dia, sai de noite (quando não vira a noite), vai quando está chovendo, quando não tem ninguém, quando está cheio, quando está sujo, quando está gelado, ruim, bom, feio, bonito ... Ponto.

Que 2004 seja um ano de muitas realizações para todos nós, surfistas e
não surfistas, ex-surfistas e futuros surfistas. Parodiando um zineiro: A-Té!

 

Claudio da Matta

surfepensado@itacoatiara.com

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