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Por Claudio da Matta
 
 

O poder do surfe
Desenvolvimento consciente e comprometido

Impossível não aproveitar o Inverno como introdução. A estação preferida dos surfistas chegou no último dia 20 de junho, justamente num domingo de sol, clima fresco e ondas maravilhosas quebrando em toda a praia, do Costão ao Pampo. Depois veio o que chamam de veranico, o mar ficou liso, e agora voltou a bombar com a chegada de sucessivas frentes-frias. Ouvi falar que o fundo em Piratininga também está bom (ou, esteve...).

Pôr-do-sol em Piratininga. Foto: Pablito Hoffman. Reprodução Fanzine Shape@a

Lamento o fato de que, depois que Piratininga sofreu uma grande intervenção urbanística, com a construção de um calçadão que não deu espaço para a existência de uma restinga, as ondas naquela linda praia não sejam mais as mesmas, pelo menos no que diz respeito à sua constância. Obra de um ‘político’, que pretende voltar com tudo pra cidade, e ainda conta com o apoio de ‘ambientalistas’. Francamente...

Comecei a pegar onda em Piratininga. Já vi o ‘Desvio’ e o ‘Cantão’ (não sei se os locais chamam assim os cantos esquerdo e direito, respectivamente) quebrando de gala, com uma galera veterana dominando. Sem falar nas inúmeras idas e vindas à Prainha (de Pirá), a bordo do nada saudoso ônibus 54 (Largo da Batalha-Piratininga) e, por outro lado, dos saudosos passeios com Tio Roberto e o meu primeiro parceiro de surfe, Robertinho. É o primo Betinho que lembra das ondas de Piratininga, entre outras coisas...

  “Na nossa época de adolescente, não tínhamos dinheiro para comprar prancha, mas tínhamos pé de pato e umas pranchinhas de isopor que chamávamos de ‘isoporeco’. Acho que era na época da biquilha, porque aprendemos a surfar com mono e biquilha. Começamos na Prainha, um dos nossos picos de origem. Escrevendo isso me lembro, realmente as ondas eram mais constantes. Piratininga é um lugar muito bonito, onde crescemos juntos. Lembra? Meu pai marcava de pegar a gente às cinco e sempre chegava às oito. Não lembro direito, mas o pessoal de antigamente tinha uma rixa com o pessoal de Itacoá, existia aquele lance de localismo. Agora, com o profissionalismo do surf em alta, com bons surfistas em Niterói, acredito que todos estejam unidos. Piratininga já foi um lugar badalado por muitos adolescentes, ‘Blow Up’, ‘Gandaia’ (onde também já foi chamado de ‘boliche da praia’). Lá tinha restinga sim, igual a Camboinhas, era mais natural, mais bonito. Lembro porque gostava de soltar pipa na praia e volta e meia tinha que ficar desembolando linha no meio do mato. Não era uma restinga como em Itacoá, era mais serrada. Lembra o Tibau, onde comíamos peixe com meu pai? Era muito bom. Este nome foi utilizado como apelido (não sei se era sobrenome ou não) de um dos netos do dono do estabelecimento, que surfava, lembra?! Não te nego, lembrando disso tudo fico até emocionado! Saudades de uma época em que podíamos andar na rua de madrugada, como andávamos“.
 
O colunista que vos fala, o primo Robertinho e a irmã Isabela. Verão de 1985 na Região dos Lagos. Primeira caída na Praia do Foguete. Fotos: Renato da Matta.

Sou favorável à construção de um fundo artificial em Piratininga. Mas esse fundo precisa ser construído e planejado junto com um projeto de revitalização da praia, da lagoa e do bairro em geral, que, ainda, é muito bonito. Não adianta chegar lá, ‘construir’ ondas clássicas, modificar a freqüência de visitantes na região e deixar que tudo se acomode ‘naturalmente’, de acordo com os interesses pessoais de quem tem grana para promover especulação desordenada com essa oportunidade. Ainda mais se o pico atingir qualidade internacional. Lembrando que Piratininga, ainda, não tem prédios, como em Itacoatiara.

O surfe pode ter uma grande participação no correto e sustentável desenvolvimento turístico, esportivo, social e cultural de Niterói. Mas nós, surfistas, precisamos estar comprometidos com esta potencialidade, com essa força. Precisamos saber que força é essa, qual o seu tamanho. O surfe de Niterói, as outras modalidades esportivas que dependem da natureza e seus praticantes precisam de representantes políticos desinteressados em relação ao poder, visando colocar em prática o que é realmente importante para que a gente, no mínimo, continue se divertindo. Sem falar nos nossos filhos e netos. Não existe razão para que eles não aproveitem o que a gente ainda aproveita.

Pelo que vejo, o poder público municipal e os empresários da especulação imobiliária da cidade não têm (é impossível que tenham!) os mesmos interesses de quem pretende continuar surfando em Itacoatiara, Piratininga, Itapuca, Itaipu, ou de quem pretende continuar velejando na baía, escalando nas pedras, caminhando nas montanhas, voando de asa ou parapente etc.

Seria importante que muitos de nós tivéssemos essa consciência, e que, pelo menos, alguns poucos tivessem a disposição. Eu ofereço o Surfe Pensado para esse tipo de discussão, desvinculada de partidos e siglas. A galera precisa perceber que política é importante. O que não é importante, o que é deprimente, é o que vemos esses caras fazendo não só em Niterói, mas em todo o país. E não adianta vir choramingando que isso é coisa de país subdesenvolvido não, de cidade provinciana não! Vai lá em Portugal, no pico de Ribeira d’Ihas, palco de competições nacionais e internacionais, onde querem construir uma saída de esgoto, segundo a revista Surf Portugal (edição #135 - abril de 2004). Vai ver se o Governo francês não fez disparo de bombas no Taiti, para testar bombas... Vai vendo. Acorda rapaziada! Outubro tá vindo aí! Como disse o antropólogo Roberto DaMatta outro dia, na Rádio Nacional (1130 AM), “o voto é como a única bala em um revólver – o tiro tem que ser perfeito”.

Nota:
Gostamos de ver o cartaz da 1a etapa do circuito da Associação de Surf de Niterói 2004, onde se lia “1a Etapa (...) de SURFE 2004”, utilizando a palavra brasileira para se referir à arte de andar sobre as ondas, que a gente gosta tanto. Ondas que, aliás, como de costume, não faltaram na disputa, sustentando a fama dos eventos da ASN. Parabéns galera!

Leia algumas mensagens que a coluna recebeu. Valeu rapaziada!

 

Claudio da Matta

surfepensado@itacoatiara.com

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