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O
poder do surfe
Desenvolvimento consciente e comprometido
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Impossível
não aproveitar o Inverno como introdução.
A estação preferida dos surfistas
chegou no último dia 20 de junho,
justamente num domingo de sol, clima fresco
e ondas maravilhosas quebrando em toda a
praia, do Costão ao Pampo. Depois
veio o que chamam de veranico, o mar ficou
liso, e agora voltou a bombar com a chegada
de sucessivas frentes-frias. Ouvi falar
que o fundo em Piratininga também
está bom (ou, esteve...).
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| Pôr-do-sol
em Piratininga. Foto: Pablito
Hoffman. Reprodução
Fanzine Shape@a |
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Lamento
o fato de que, depois que Piratininga sofreu uma
grande intervenção urbanística,
com a construção de um calçadão
que não deu espaço para a existência
de uma restinga, as ondas naquela linda praia
não sejam mais as mesmas, pelo menos no
que diz respeito à sua constância.
Obra de um ‘político’, que
pretende voltar com tudo pra cidade, e ainda conta
com o apoio de ‘ambientalistas’. Francamente...
Comecei
a pegar onda em Piratininga. Já vi o ‘Desvio’
e o ‘Cantão’ (não sei
se os locais chamam assim os cantos esquerdo e
direito, respectivamente) quebrando de gala, com
uma galera veterana dominando. Sem falar nas inúmeras
idas e vindas à Prainha (de Pirá),
a bordo do nada saudoso ônibus 54 (Largo
da Batalha-Piratininga) e, por outro lado, dos
saudosos passeios com Tio Roberto e o meu primeiro
parceiro de surfe, Robertinho. É o primo
Betinho que lembra das ondas de Piratininga, entre
outras coisas...
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“Na
nossa época de adolescente, não
tínhamos dinheiro para comprar prancha,
mas tínhamos pé de pato e umas
pranchinhas de isopor que chamávamos
de ‘isoporeco’. Acho que era na
época da biquilha, porque aprendemos
a surfar com mono e biquilha. Começamos
na Prainha, um dos nossos picos de origem.
Escrevendo isso me lembro, realmente as ondas
eram mais constantes. Piratininga é
um lugar muito bonito, onde crescemos juntos.
Lembra? Meu pai marcava de pegar a gente às
cinco e sempre chegava às oito. Não
lembro direito, mas o pessoal de antigamente
tinha uma rixa com o pessoal de Itacoá,
existia aquele lance de localismo. Agora,
com o profissionalismo do surf em alta, com
bons surfistas em Niterói, acredito
que todos estejam unidos. Piratininga já
foi um lugar badalado por muitos adolescentes,
‘Blow Up’, ‘Gandaia’
(onde também já foi chamado
de ‘boliche da praia’). Lá
tinha restinga sim, igual a Camboinhas, era
mais natural, mais bonito. Lembro porque gostava
de soltar pipa na praia e volta e meia tinha
que ficar desembolando linha no meio do mato.
Não era uma restinga como em Itacoá,
era mais serrada. Lembra o Tibau, onde comíamos
peixe com meu pai? Era muito bom. Este nome
foi utilizado como apelido (não sei
se era sobrenome ou não) de um dos
netos do dono do estabelecimento, que surfava,
lembra?! Não te nego, lembrando disso
tudo fico até emocionado! Saudades
de uma época em que podíamos
andar na rua de madrugada, como andávamos“. |
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| O
colunista que vos fala, o primo Robertinho
e a irmã Isabela. Verão de 1985
na Região dos Lagos. Primeira caída
na Praia do Foguete. Fotos: Renato
da Matta. |
Sou
favorável à construção
de um fundo artificial em Piratininga. Mas esse
fundo precisa ser construído e planejado
junto com um projeto de revitalização
da praia, da lagoa e do bairro em geral, que,
ainda, é muito bonito. Não adianta
chegar lá, ‘construir’ ondas
clássicas, modificar a freqüência
de visitantes na região e deixar que tudo
se acomode ‘naturalmente’, de
acordo com os interesses pessoais de quem tem
grana para promover especulação
desordenada com essa oportunidade. Ainda
mais se o pico atingir qualidade internacional.
Lembrando que Piratininga, ainda, não tem
prédios, como em Itacoatiara.
O
surfe pode ter uma grande participação
no correto e sustentável desenvolvimento
turístico, esportivo, social e cultural
de Niterói. Mas nós, surfistas,
precisamos estar comprometidos com esta potencialidade,
com essa força. Precisamos saber que força
é essa, qual o seu tamanho. O surfe de
Niterói, as outras modalidades esportivas
que dependem da natureza e seus praticantes precisam
de representantes políticos desinteressados
em relação ao poder, visando colocar
em prática o que é realmente importante
para que a gente, no mínimo, continue se
divertindo. Sem falar nos nossos filhos e netos.
Não existe razão para que eles não
aproveitem o que a gente ainda aproveita.
Pelo
que vejo, o poder público municipal e os
empresários da especulação
imobiliária da cidade não têm
(é impossível que tenham!) os mesmos
interesses de quem pretende continuar surfando
em Itacoatiara, Piratininga, Itapuca, Itaipu,
ou de quem pretende continuar velejando na baía,
escalando nas pedras, caminhando nas montanhas,
voando de asa ou parapente etc.
Seria
importante que muitos de nós tivéssemos
essa consciência, e que, pelo menos, alguns
poucos tivessem a disposição. Eu
ofereço o Surfe Pensado para esse tipo
de discussão, desvinculada de partidos
e siglas. A galera precisa perceber que
política é importante. O que não
é importante, o que é deprimente,
é o que vemos esses caras fazendo não
só em Niterói, mas em todo o país.
E não adianta vir choramingando que isso
é coisa de país subdesenvolvido
não, de cidade provinciana não!
Vai lá em Portugal, no pico de Ribeira
d’Ihas, palco de competições
nacionais e internacionais, onde querem construir
uma saída de esgoto, segundo a revista
Surf Portugal (edição #135 - abril
de 2004). Vai ver se o Governo francês não
fez disparo de bombas no Taiti, para testar bombas...
Vai vendo. Acorda rapaziada! Outubro tá
vindo aí! Como disse o antropólogo
Roberto DaMatta outro dia, na Rádio Nacional
(1130 AM), “o voto é como a única
bala em um revólver – o tiro tem
que ser perfeito”.
Nota:
Gostamos de ver o cartaz da 1a etapa
do circuito da Associação de Surf
de Niterói 2004, onde se lia “1a
Etapa (...) de SURFE 2004”, utilizando a
palavra brasileira para se referir à arte
de andar sobre as ondas, que a gente gosta tanto.
Ondas que, aliás, como de costume, não
faltaram na disputa, sustentando a fama dos eventos
da ASN. Parabéns galera!
Leia
algumas mensagens que a coluna recebeu. Valeu
rapaziada!
Claudio
da Matta
surfepensado@itacoatiara.com
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